(O Conto é formado por uma série de epígrafes distribuídas por três dos quatro livros que compõem o romance.)
I
Acsaiod, o Senhor do Poder, vivia só. Ele era o soberano de um universo sem vida. Vagava brilhando pelo vazio do espaço moldando tudo o que via. O próprio cosmos era uma visão de Acsaiod. Sua onipotência era inquestionável, ao menos até o momento da Percepção. Neste instante, Acsaiod descobriu que sua vontade não era soberana. Apesar de seu poder ser absoluto, cogitou que talvez seu querer não fosse livremente determinado. Como ele vivia no tempo e dele não era senhor, Acsaiod se questionou se não haveria outro poder que, se assenhoreando do tempo, o influenciasse. Da percepção de Acsaiod, delineou-se a figura de Onerab, a senhora do destino. Acsaiod, ao conhecê-la, deixou de ser só. Percebeu a complementaridade que havia entre as duas forças, e a Onerab ele se uniu. (...) Da união de ambos nasceu Zamiar, que trazia em si os poderes de seus pais. Por ser o senhor do poder e do tempo, a luz de Zamiar logo seria mais forte que a de Acsaiod. Percebendo tal realidade e consumido pela inveja, o senhor do poder acabou por ludibriar o próprio destino, destruindo seu filho. A essência de Zamiar, ao ser despedaçada, deu origem às coisas viventes. Onerab, inconformada, tentou mudar o passado, mas sem o poder, o tempo nada podia. (...) Das lágrimas de Onerab, nasceram os oceanos. Acsaiod, o sol, e Onerab, a lua, estariam separados para sempre. (trecho retirado da obra “A Mitologia Norgam” - Leonat de Cilion)
II
O nascimento de Eioa e dos seres mortais: O Mensageiro das Estrelas foi a primeira criação de Onerab, a Senhora do Destino. Ela elaborou sua essência inspirando-se na porção da natureza de seu filho morto que era capaz de compreender e recriar. Presenteou-lhe com seu mais precioso tesouro, a chave do futuro e do passado, e lhe disse o seguinte, com voz sussurrante: “Eioa, criança das estrelas, você será o mensageiro do tempo nos domínios do espaço. Minha ira está em você”. Ordenou, então, que ele impedisse perecimento da essência despedaçada de Zamiar no Abismo Inexorável que a Janeroai antiqüíssima consumia. E Eioa obedeceu. Grande era seu poder nesses dias primordiais. O próprio Ax assustou-se ao vê-lo pela primeira vez movendo-se pelo espaço vazio como imensa esfera flamejante, que a mundos inteiros consumia. Confundiu-o com seu filho, que ele mesmo assassinara. Os dois chegaram a lutar brevemente, mas o Senhor do Poder, temeroso, retirou-se do titânico embate. (...) Eioa, então, levou a essência de Zamiar para os domínios de Oguera, de montanhas furiosas, e Agorim, de silenciosas planícies. Lá a essência floresceu e as coisas viventes vieram a existir. (Taorisaiam - Senhores do Destino)
III
Das Guerras Ancestrais: as guerras observadas quando do alvorecer da essência foram as mais terríveis que já existiram ou que virão a existir. Quando Acsaiod, o Senhor do Poder, descobriu que Eioa não era seu filho mas, sim, um ser bem menos poderoso, decidiu acabar o que havia começado e jogar a essência no Abismo Inexorável. Contudo, Onerab enfrentou-o pessoalmente. Não seria iludida outra vez. Acsaiod foi imobilizado, pois quando se movia, o futuro tornava-se passado, e ele era jogado ao lugar onde havia partido. (...) Contra Onerab o Senhor do Poder arremessou incontáveis esferas de chama e pensamento. A Senhora do Destino, porém, resistiu, e se o confronto persistisse, nenhum dos dois teria triunfado, mas o Universo pereceria. Ao se aperceberem dessa realidade, os deuses superiores encerraram a batalha e concordaram em não mais interferir diretamente no destino da essência. O silêncio que se seguiu durou eras inteiras. Acsaiod, porém, não desistira. Por um tempo indescritível ele ponderou e planejou. (...) Quando preparado estava, voltou subitamente sua atenção para as paragens em que a essência fora depositada. Lá concentrou toda sua vontade e o espaço dobrou-se sobre ele, fazendo com que o restante do Cosmos perdesse intensidade e luz. Criou, então, derivações de si mesmo, quatro ao todo. Se nenhuma delas se comparava a Eioa em força, juntas, as quatro divindades suplantavam-lhe facilmente. Mas o guardião não fugiria. Defenderia a essência com os meios de que dispusesse, em homenagem a sua senhora. (Taorisaiam - Senhores do Destino).
IV
Eioa por eras inteiras enfrentou as divindades que Ax contra ele lançou. Apesar da força descomunal dos filhos do Senhor do Poder, o Mensageiro das Estrelas logrou proteger sozinho os fragmentos da essência, de sorte que, apesar da batalha incessante, a vida floresceu nos domínios de Oguera, de montanhas furiosas, e Agorim, de silenciosas planícies. (...) Ocorreu, porém, um evento singular que só Onerab previa: o surgimento da raça dos homens. Pela primeira vez a mente de Zamiar, dissolvida na essência, recuperava, em parte, sua forma, sua organização. Pela primeira vez, o intelecto ameaçava ressurgir, ainda que dividido, ainda que sob a roupagem de criaturas infinitamente débeis e limitadas (se comparadas aos deuses), seres quase ridículos, completamente ignorantes de sua origem ou de seu destino. E, no entanto, não havia dúvida. Era ele mesmo: o intelecto da entidade mais poderosa que já existira no Universo habitava aquelas criaturas, tentando reorganizar-se, compreender-se, renascer! Houve um grande espanto entre as divindades ante essa constatação e a guerra paralisou-se. Dizem que o mais espantado foi o próprio Acsaiod, pois naquele momento o Senhor do Poder teria compreendido muitas coisas sobre os planos de Onerab, sobre a natureza da essência e sobre si mesmo. E muitos acreditam que uma mudança capital operou-se nele em face daquela singular promessa de renascimento. (Taorisaiam - Senhores do Destino).
V
A traição de Eioa foi um evento único. Dela falarei depois, já que preciso dissertar primeiro sobre a causa dessa traição. Trata-se de Meiaiam, a senhora do firmamento, a mais perfeita e poderosa das criações de Acsaiod. Os irmãos mais velhos de Meiaiam (Laquiam, Teraiam e Edariam) nasceram imbuídos de intenso espírito combativo, em função do estado de ânimo agressivo de Ax, seu criador. Por isso, sentiram grande ódio por Eioa e passaram a lutar contra ele assim que o encontraram. Com Meiaiam, porém, foi diferente. Ela surgiu em um momento em que a essência já florescia e o ódio de Ax fora parcialmente substituído pela curiosidade, pelo desejo de compreender o processo que se iniciara. Por isso, Meiaiam, ao deparar-se com Eioa, não sentiu ódio mas, sim, a vontade de compreender a ele e à essência. Por eras inteiras das terras mortais ela dedicou-se a analisar e ponderar sobre a guerra e sobre seu inimigo, o que causou revolta em seus irmãos, os quais naturalmente desejavam que ela engajasse seu enorme poder nos combates. O próprio Ax certa vez resolveu inquiri-la a esse respeito. “Pai querido”, ela respondeu, “não deixo de lutar por desrespeito ou infidelidade ao senhor, como meus irmãos insistem em dizer”. “Contudo, porque nasci sob o signo da curiosidade, minha inclinação é entender e não lutar”. “Mas eu lhe asseguro, meu pai, que desse entendimento grandes vitórias advirão! Por isso, mesmo que todos lhe digam o contrário, nunca duvide de minha fidelidade”.“No fim, perceberá que servirei muito melhor a seus desígnios do que meus belicosos irmãos”. Acsaiod, satisfeito, jurou nunca mais duvidar de sua filha por mais estranhas que fossem suas atitudes, pois anteviu algo que nem mesmo Onerab imaginava: Meiaiam, assim que decidisse agir, seria capaz de lhe garantir sozinha a vitória definitiva! (...) E foi logo após a ascensão da raça dos homens, quando o conflito havia momentaneamente se paralisado, que as longas eras de meditação de Meiaiam tiveram fim. Ela desceu, então, às terras de Oguera e Agorim sob a forma de uma majestosa esfera azulada, semelhante a uma gigantesca safira, causando admiração tanto em seus pares divinos quanto nos mortais que, maravilhados, puderam contemplá-la. (Taorisaiam – Senhores do Destino)
VI
Traição e lealdade não são coisas opostas como freqüentemente se acredita. O mais comum é que uma não possa existir sem a outra e que as duas se combinem numa mesma mudança, numa afirmação, que pode ser verbalizada por meio de uma promessa. É quando uma nova lealdade emerge, sob a forma de uma traição às expectativas de outros e do próprio indivíduo sobre aquilo que acredita e defende. Foi o que aconteceu com Eioa. Após eternidades defrontando-se como os filhos do sol, o enviado do destino iria trair sua antiga senhora e torna-se ele próprio um servo de Ax. As circunstância dessa transformação são pouco conhecidas dos mortais. O que se sabe ao certo é que tudo começou com a decisão do poderoso Edariam, a primeira das divindades criadas por Ax, de destruir a raça humana, eliminando, assim, o risco da ressurreição de Zamiar, o senhor do poder e do destino. Eioa, o eterno defensor da essência, procurou impedi-lo, mas grande foi a destruição que sobre o mundo se abateu e maior ainda o sofrimento humano nesse tempo conhecido como a Decadência. Tudo indicava que Edariam alcançaria seu intento e os homens pereceriam. No momento crucial, porém, Meiaiam (que os oreanos chamam Ainoig), a filha mais nova de Ax, traiu seu irmão e colocou-se ao lado de Eioa na defesa da raça humana! E os dois juntos destruíram Edariam, salvando os homens do extermínio. Como essa traição levaria a tão famosa promessa de Eioa? Esse é o tema de que tratarei a seguir. (Alena de Tindaris – Herança e sabedoria dos norgam).
VII
“Você acha que eu odeio os seres humanos Eioa? Você acha que ela os ama?”, perguntou Meiaiam. “Julgue-nos por nossas ações! Ela estava unida a meu irmão nos seus planos de extermínio. Onerab os matará a todos se puder, pois o que ela sempre desejou foi controlar Zamiar, devorá-lo, para ser ela própria a senhora absoluta do Universo! Foi por isso que meu pai quis jogar a essência no abismo. (...) Os seres humanos são obstáculos aos planos de Onerab. Enquanto a mente de Zamiar existir, ainda que sob uma forma débil, ela não poderá absorvê-lo. Nem mesmo meu pai poderia contê-la se ela conseguir os poderes de Zamiar. Ela destruirá a nós todos e recriará o universo a sua imagem e semelhança”, Meiaiam falou. Percebia-se que estava muito ferida. “Não se esqueça: mesmo os deuses podem morrer. Sou uma prova disso”, murmurou. “Minha mãe não me mataria”, ponderou Eioa. Meiaiam, que ainda assumia uma forma humana, sorriu ante esse comentário, um sorriso triste. “Meu pobre tolo, ela não precisará mais de você. Será descartado com o resto de nós. Será eliminado como essas pobres pessoas, seres tão frágeis, mas que são, apesar de tudo, a esperança desse universo, a esperança de todos nós!” falou. Ela havia perdido a forma humana, ante a desagregação de seus padrões energéticos. Eioa percebeu que Meiaiam logo morreria. “Os seres humanos, você os ama, afinal”, ele disse. “Sim. Desde que vislumbrei a nova perfeição... o segredo que se encontra em seus espíritos. Você também viu, não viu? Eles só precisam descobri-lo, Eioa! Aí estaremos salvos. Você tem que ajudá-los, você tem que defendê-los! Você é mais forte do que eu! Ninguém mais pode ter sucesso... Eles podem ser nossa última esperança, mas você, depois que eu me for, será a última esperança deles”. Eioa viu a deusa morrer, sabendo que ele deveria ter sido destruído no lugar dela, que o ataque destinava-se a ele! Por que ela se sacrificara para salvá-lo? O motivo era óbvio: ele tinha mais chances de sucesso. Talvez somente ele conseguisse ajudar a humanidade a descobrir o segredo... Consternado, o deus percebeu que Meiaiam dera sua vida não para salvá-lo, propriamente, mas pelo futuro de sua adorada raça humana. (do Evangelho Proscrito de Palos)