O Livro de Ariela
Sinopse:
O segundo dos quatro livros é narrado pela Princesa de Delon, Ariela Delonien. A história passa-se onze anos após "O Livro de Dinaer". A Princesa acompanha Rairom em uma misteriosa jornada através da Península Oreânica, em direção às Montanhas Queialiam. O desenrolar dessa aventura, bem como suas relevantes conseqüências formam o principal foco narrativo de "O Livro de Ariela".
O Livro de Ariela é sobre Rairom Guenor e seu destino. Muito é definido nesse volume surpreendente.
Texto Introdutório:
“"Uma espada pende sobre nossas cabeças. Tolos são aqueles que escolhem ignorá-la. Os Pergaminhos de Ecstar previram o nascimento do alorain, do enviado da morte destinado a trazer a antiga guerra ao mundo dos homens mortais. Ele será como nós: também um ser humano, na aparência. Mas sua mente será impelida pela sombra de seu nefasto destino em direção ao inevitável. Forças poderosas, eternas, conspirarão em favor do sinistro propósito que o anima. Mas antes que tudo esteja definido, um de nós deverá encontrá-lo. Um guardião do mundo estará com o alorain e terá a oportunidade de destruí-lo! Os pergaminhos são muito claros a esse respeito, para os que sabem interpretá-los. Infelizmente, o sucesso do guardião não está assegurado. Longe disso! Uma nebulosidade paira sobre o texto e sobre a visão do profeta. Estranhamente, ele fala de amor e de ódio, de guerra e de paz, como se tais conceitos não fossem opostos... como se houvesse uma sutil complementariedade entre eles. E tudo termina em derramamento de sangue e no medo mais essencial. A releitura dos pergaminhos só torna mais sombria sua mensagem. Contudo, no texto também se desenha a possibilidade de uma vitória sem precedentes sobre as forças do Abismo. Oh, Anjo Vingador, quando o momento chegar, não desampare o guardião! Faça com que tenha a força necessária para enfrentar o alorain. Dê a ele o poder de encontrar a verdade através da densa névoa de mentiras. Permita que ele tenha a suficiente perseverança para destruir a muralha do medo, chave do triunfo sobre o mal. Sobretudo, que não lhe falte fé, pois esta é a fonte primordial da coragem e a assassina do desespero. Que assim seja em nome das forças da Luz!"(Comentário aos Pergaminhos - autor desconhecido)
Prólogo:
Da janela de meus aposentos, eu via o alaranjado pôr-do-sol. Tinha sido um dia calmo de primavera em que o calor dos raios solares era sempre aliviado por uma suave e intermitente brisa. Havia repousado praticamente durante todas aquelas horas deliciosamente intermináveis. Um dos monges, preocupado com meu estado, viera me fazer uma visita, mas eu dera ordens estritas de que não desejava ser perturbada. Na verdade, todos no mosteiro estranhavam o meu isolamento. Muitos acreditavam que eu estivesse doente. Isto era evidentemente inverídico. Ainda assim, tal conclusão era compreensível. Eles não sabiam que durante os últimos trinta e oito dias eu estivera entretida no mais importante dos trabalhos de minha vida. Eu era a voz pela qual Dinaer relatava a história do primeiro alorain. O relato era feito mais através de imagens do que de palavras. Cabia a mim a difícil tarefa de transformá-las em texto. Era um trabalho fatigante. Por isso, estava feliz por ter tido a oportunidade de repousar durante todo aquele dia. Agora, sentia-me revigorada e pronta para continuar. A parte mais importante da Primeira Iniciação devia ainda ser relatada.
Quando o sol não era mais visível e as primeiras estrelas da noite já pontilhavam o céu, Ele fez-se presente. Eu, que só o esperava no dia seguinte, surpreendi-me. Sem a necessidade de me provar coisa alguma, sua forma era quase humana. Sua expressão continuava gentil e terna. O que Ele disse, porém, foi difícil de aceitar. Prematuramente, viera despedir-se. Consternada, argumentei que o trabalho ainda não estava encerrado. Ele explicou-me então que não seria por sua voz que a parte final da Primeira Iniciação seria relatada. Apresentou-me vários argumentos. O principal deles era o de que não tivera condições de acompanhar o desenvolvimento dos fatos da proximidade que seria recomendável. O escolhido passara a perceber sua presença e a tentar repudiá-la. Embora Rairom não pudesse afastá-lo nem da sua própria mente, nem da de terceiros, Dinaer, espontaneamente, escolhera acompanhar o desenrolar dos eventos à distância. Explicou, ainda, que já havia um relato coerente dos fatos a serem narrados. Foi quando Ele me apresentou um conjunto de anotações que eu deveria organizar.
Ao ler suas primeiras páginas, grande foi o meu espanto. Blasfêmias e heresias se multiplicavam a cada frase. Como poderia um livro sagrado ter por base tais impropérios? O Deus do Céu já esperava por minhas reservas. Com o olhar compreensivo de um pai que ensina a filha, ele explicou que quando tudo estivesse terminado, quando a Causa fosse alcançada, tais mentiras não teriam mais efeito algum. Argumentou que o conhecimento da pregação do Inimigo só serviria para fortalecer o fiel que passaria a estar ciente das armadilhas ardilosas da retórica, tornando-se, assim, imune a elas. “Quem está do lado da verdade, não pode temer as mentiras”, arrematou. Ademais, a despeito desse lado negativo, Dinaer me garantiu que as anotações como um todo não serviriam para enfraquecer a Causa, muito pelo contrário. Eu aceitei seus argumentos. Confiava no Supremo Guia completamente.
Por fim, Ele me instruiu a complementar o texto obtido, após findo o trabalho, com trechos de outras obras que servissem para enriquecê-lo. Depois de terminada esta etapa, deveria entregar o resultado final na Cidade de Algar a um certo Laiossarionin, juntamente com um presente e um recado. Meu trabalho, então, estaria concluído. Sorrindo, ele agradeceu-me e despediu-se, desaparecendo no nada. Eu nunca o veria novamente. No entanto, tinha certeza de que Ele não me abandonaria.
Muito ainda restava a ser feito. Sem mais delongas, naquela mesma noite, passei à leitura das anotações, cujo relato se iniciava num dia chuvoso de inverno na antiga cidade de Delon.
Capítulo 1: A verdade da ilusão
Eu vaguei só por estas paragens. Grande foi minha jornada, longo o tempo de espera. Ansiava por uma resposta, mas ninguém me ouvia. Na vaguidão dos conceitos falados nenhum consolo eu encontrava. Palavras vazias preenchem o mundo inteiro. Quando tudo estava verbalizado e mesmo assim eu nada compreendia, percebi-me aprisionado pela muralha de minha própria perplexidade, acuado eternamente pela ignorância do meu pensar. A busca havia sido em vão. No entanto, os meus conceitos vazios, que nada explicavam, tinham sua utilidade. Serviam para sustentar meu castelo que, construído em solo lodoso, estava sempre para desabar. Nada, além deles, me separava do abismo. Foi quando veio a visão. Não havia palavras, imagens, sons, tato, cheiro, gosto, nada que se possa apreender. Mas eu vi, sem ver, que curso devia tomar e ouvi, sem ouvir, a voz que tudo explicava. Apesar de não ter encontrado minha resposta, não senti mais a necessidade de procurá-la. Era como se eu a tivesse apreendido, mas simplesmente fosse incapaz de verbalizá-la. Porque encontrei tantas ilusões na verdade, não me surpreendi ao me defrontar com a verdade numa ilusão. (trecho retirado da obra “Enigma” escrita por Anesontari Gonar)
Quando me levantei naquela manhã nublada, dirigi-me à sacada dos meus aposentos. Era isto que fazia todas as manhãs, quase como num ritual. Precisava observar a planície ao longe, nutrir-me de sua energia. Queria sentir o pulsar do mundo. A imensidão dos campos verdes tocados pelo vento lembrava-me da majestade que à natureza era peculiar. Além das muralhas de Delon, estavam terras misteriosas, selvagens, repletas de perigos e maravilhas esperando para serem descobertas. Por algum motivo, algo dentro de mim ansiava por conhecê-las. Rompantes da juventude, era o que dizia meu pai. Mas eu não era mais tão jovem. Tinha já vinte e dois anos de idade, quase vinte e três. O tempo passava, mas, em vez de arrefecer minhas vontades, só aumentava meu cansaço, meu tédio. Ansiava por aventura, mas, sobretudo, temia o destino das outras moças de minha estirpe, cujo único objetivo na vida era o casamento. Eram seres condenados à reprodução, desperdiçando por completo suas existências. Não que ter filhos fosse um desperdício. Mas certamente o era dedicar toda a vida a um casamento arranjado. Eu queria mais do que isso. O que eu não podia imaginar é que estava tão próxima de conseguir meu objetivo e que, depois de alcançá-lo, me arrependeria de tê-lo desejado.
Era o dia sinroel-3 do ano 1972 p.e. Naquele ano, havíamos tido um outono bastante agradável. Era o início do inverno e ainda não houvera sequer um dia de frio. No entanto, os ventos gélidos da guerra sopravam em direção a Delânia pela primeira vez em mais de um grande ciclo. É fato que na guerra de Algar tivemos uma participação discreta. Esta, porém, quase não foi notada, de tão insignificante. Não que fôssemos um reino sem peso político. Sempre o tivemos, mesmo no tempo dos antigos Cilianos. Mas éramos um povo pacífico. Nós nos orgulhávamos de termos fundado todas as nossas cidades. Nunca tivemos cativos, nem escravos. Éramos amantes da paz, é verdade, mas não fracos. Por isso, nem mesmo o mais poderoso dos cinogs ousou tentar nos conquistar. Este, porém, não era o caso do Larcon e de sua horda zainiquiar, como eu estava prestes a descobrir.
Naquele dia, meu pai me acordara mais cedo do que de costume. Ele exigiu minha presença numa reunião com os refugiados de Tansis. Todo o Conselho de Anciãos se reuniria para ouvir seus relatos. As terríveis notícias do ataque a nossa cidade portuária haviam ecoado rapidamente pelos quatro cantos de Delon. Todos estavam alarmados e revoltados. Mas a minha revolta era por motivo diverso. Eu não entendia o comportamento de meu pai. Ora exigia que eu aceitasse um pretendente e me casasse, ora demandava que eu me comportasse como o filho que ele nunca teve, indo a reuniões do Conselho, nas quais só havia homens. Era realmente algo muito paradoxal. Mas eu já desistira de entender meu pai.
Minha serviçal, Degan, chegou mais cedo do que de costume naquele dia. Trazia minha refeição. Quando terminei de comer, ela me ajudou a me aprontar. A pobre mulher estava apressada e ansiosa. Por certo, meu pai exigira dela que eu chegasse no horário. Mas como poderia Degan acelerar minha relutância, expurgar minha lentidão? A resposta era simples: não podia. Por isso, quando finalmente me aprontei, já estava bastante atrasada. Mas eu não me importava muito com isso. Não ligava para horários, especialmente quando estes eram exigências de meu pai. Era uma rebeldia tola de uma garota mimada, que a vida obrigaria a superar.
Quando cheguei à sala do Conselho, os grandes portais prateados estavam fechados, o que indicava que as deliberações já haviam começado. Duas sentinelas estavam à porta. Eu sequer me dirigi aos guardas. Fui abrindo o portal por minha própria conta. Era muito desrespeitoso interromper uma reunião do Conselho sem ser anunciada. Mas eu pouco me importava com estas normas de etiqueta. Uma das sentinelas fez menção de me impedir.
— Espere, Princesa — disse ele. — Eu me encarregarei de anunciá-la.
— Não é necessário. Meu pai está a minha espera — retruquei. Logo em seguida, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eu já estava entrando. A sala do Conselho era ampla, mas logo que penetrei no recinto imediatamente todos olharam em minha direção. Isto era inevitável, até pelo barulho que faziam aquelas velhas dobradiças, que serviam como desafinados arautos anunciando minha chegada. No extremo oposto da sala havia uma grande mesa. Lá estavam os conselheiros em número de dez. Cada um era membro de uma família fundadora, como eram chamadas as linhagens mais importantes da cidade. Não que todas tivessem participado da fundação de Delon. Um assento no Conselho dos Doze era conquistado mais por riqueza e poder do que por tradição. As cinco cadeiras da esquerda eram ocupadas pelos clãs pertencentes à Tribo de Iadi. À direita estavam os cinco representantes da tribo mais antiga, à qual minha família pertencia. Era a chamada Tribo de Delon, ou Tribo Ierônica. Entre ambas, ao centro da mesa, ficavam os dois reis, cada um representando uma das tribos. Não vou entrar em detalhes sobre a forma de governo de minha cidade. Basta dizer que os reis tinham poder para agir sempre que estivessem de acordo. Em caso de dissensão, a questão era decidida pelo Conselho dos Doze. Em algumas situações, porém, somente o Conselho podia decidir. Era este o caso da declaração de uma guerra.
Eu podia sentir o ar pesado. De costas para mim, estavam os tansianos. Eles também olharam na minha direção. Em seus rostos, percebia-se um grande pesar. Segundo as notícias, a cidade fora queimada por completo. Aquela gente havia perdido tudo o que haviam construído por muitas gerações. Eu me compadeci deles. Um dos refugiados, consegui reconhecer prontamente. Era o governador da cidade, Raolus Lombar. Era um bom amigo de meu pai, partilhavam muitos empreendimentos. Pelo que soube mais tarde, Raolus e o pai dele haviam articulado nossa aliança com a Terra das Sombras, durante a Guerra de Algar. Considerava-se um bom aliado dos zainiquiares. Por isso, ainda estava atônito com os imprevisíveis e catastróficos acontecimentos.
— Minha filha — disse o Rei dos delones — vejo que resolveu comparecer, mas não pretendo permitir que assista esta reunião. Se ainda almeja sentar nesta cadeira algum dia, deverá aprender valores simples como respeito e solidariedade ao sofrimento alheio, bem como o amor aos interesses de nossa cidade. Você não possui nenhuma dessas virtudes. Do contrário, teria sido pontual, num momento tão importante — disse friamente. Não entendia a razão daquele sermão. Ele já deixara claro por mais de uma vez que não pretendia que eu herdasse o trono. Ele o ofereceria como dote ao meu futuro esposo, seja lá quem fosse. Afinal, esta era a tradição. Durante toda a história de Delon, houve apenas uma ou duas rainhas. Ele estava fazendo aquele discurso apenas para me humilhar na frente de toda aquela gente! Mas ao contrário do que meu pai pensava, eu respeitava o sofrimento dos tansianos. Foi por isso, e apenas por isso, que não fiz uso de impropérios.
— Desculpe-me pelo meu erro, Majestade. Eu sei que deveria ter sido mais diligente. Mas se, na sua generosidade, permitir que eu assista esta reunião, prometo ser prestativa da forma que puder.
— Bem falado, Ariela — interveio o rei dos iadis, o qual era já idoso, sendo quinze anos mais velho que meu pai. Não era doente, mas tinha o ar cansado. — Teonori, peço que reconsidere e permita que a Princesa presencie tão importantes eventos, já que foi você mesmo que a convocou.
— Muito bem, Parcelos — assentiu meu pai. — Não pretendo alongar esta questão nem um momento a mais. Se minha filha deseja ficar, que fique então. Continue seu relato, Governador.
Enquanto o Governador continuava a narrar os fatídicos e inesperados eventos, eu me dirigi para uma das cadeiras, próximo às paredes, e lá me sentei. Escolhi aquela que me dava uma boa visão do Conselho e dos suplicantes, ao mesmo tempo em que era suficientemente afastada do assento em que estava Monero Zondari, um dos meus mais insistentes pretendentes. Aquele realmente sonhava com o dote. Na verdade, era obcecado por ele. Ainda mais grave: superestimava seus talentos, considerando-se um irresistível sedutor. Por isso, assim que me sentei, ele fez menção de se aproximar, mas eu o dissuadi com um olhar, ao mesmo tempo, fulminante e ameaçador. No passado, eu só conseguira afastá-lo depois de o ameaçar com minhas habilidades como sacerdotisa da Ordem da Rosa Negra. Eu prometi utilizá-las para amaldiçoar a ele e toda sua família, caso continuasse persistindo. É claro que não tinha poderes para tanto. Mas a ameaça foi bastante eficaz com o supersticioso Monero.
Quando consegui me concentrar no Governador, percebi que este continuava seus relatos. Ele explicava que os inimigos atacaram em grande número. Segundo ele, uma parte do exército invasor veio através de barcos. A maior parte, porém, veio mesmo por terra. Cruzavam as Iero-Lian, quando foram descobertos. No entanto, já estavam a apenas um dia de viagem de Tansis. Mensageiros foram enviados a Delon, mas o Governador explicou que os reforços demorariam pelo menos um sexto. Em conseqüência, decidiram tentar retardar o inimigo nos desfiladeiros, onde teriam maiores chances. No entanto, estavam em grande desvantagem. Depois de dois dias de resistência tiveram que recuar. Quando retornaram a Tansis, a cidade estava sob ataque das tropas que haviam desembarcado dos navios. Um grande incêndio se iniciara. Tudo que puderam fazer foi organizar a retirada da melhor forma possível. Mesmo assim, grande parte da população não sobrevivera ao ataque. Pelo relato do Governador, os invasores pareciam tomados de uma fúria bestial.
— Perdoe-me por interrompê-lo, Governador — disse um dos conselheiros. — Preciso aclarar uma dúvida. Diga-me: em algum momento o Império das Sombras esclareceu o motivo das hostilidades? Tentaram negociar?
— Em nenhum momento, Excelência. Como disse, pareciam tomados de uma fúria irracional cujo único intuito é a destruição cega.
— Entendo, Governador — interrompeu do Rei dos iadis. — É que nós aqui em Delon recebemos ontem à noite uma mensagem, uma espécie de justificativa para o ataque.
— E qual seria ela, Majestade? Se é que pode haver razão plausível para tamanha barbárie.
— Eles argumentam que Tansis estaria conduzindo negócios escusos com contrabandistas e piratas. Alegam que o Trono das Sombras estaria amargando prejuízos crescentes a cada ano em virtude de tais negócios — explicou o rei.
— Essa argumentação é absurda! — indignou-se o Governador. — É claro que existe contrabando em nossos portos, como em todos os demais. Talvez até piratas já tenham aportado em nossas docas, mas o fizeram clandestinamente. Não existe qualquer condescendência com essas ilegalidades. Mas ainda que houvesse, a reação exagerada do Império das Sombras é injustificável.
— Talvez sim — concordou meu pai. — Mas nossa situação é bastante delicada. O que está em jogo é se entraremos ou não em guerra com um inimigo muito poderoso. Se os motivos que levaram ao ataque foram essas disputas aduaneiras, talvez ainda possamos buscar uma solução negociada. Sei que não é a saída mais honrosa, mas devemos pensar em quantas vidas iremos poupar e também na prosperidade de nosso povo.
— Desculpe-me, Majestade — interrompeu um dos suplicantes — mas não acho que seja possível negociar com o Império das Sombras — afirmou com convicção. Possuía um estranho modo de pronunciar as palavras, que mais tarde aprendi a identificar como zainiquiar.
— Não? Parece bastante convicto, meu amigo. Diga-me, Governador, qual é o nome desse homem que acredita ver os interesses de Delon mais claramente do que seu próprio Rei?
— Perdoe-o, Majestade. Ele é de fato impulsivo, mas se mostrou sempre um homem de princípios. Seu nome é Sironiel. É ferreiro em nossa cidade.
— Meu nome é Sironiel Gonarom — interrompeu o homem, que não parecia ter medo de desafiar meu pai. Só por este motivo, eu já simpatizava com ele. — Não tenho dúvida, senhor, que os líderes dessa grande cidade são capazes de determinar muito melhor do que qualquer de nós os rumos que devem tomar. No entanto, quando se trata do Império das Sombras, com o devido respeito, nenhum de vocês tem mais experiência do que eu.
— Ah, é mesmo? Diga-me, senhor Sironiel, o que o faz crer ter tanta experiência no trato com o Império das Sombras?
— Eu pertencia ao exército de Zairom Guenor.
— Quem? — indagou meu pai, com certo desdém.
— Eu sei quem ele é — interveio o Rei Parcelos. — Ele era o nosso antigo aliado na Terra das Sombras. Era um nobre muito poderoso. Onze anos atrás, foi morto pelo Larcon.
— Sim, eu me lembro dele.
— Eu conheço o Império das Sombras e seus métodos — insistiu o homem. — E uma coisa eu posso afirmar: esta justificativa que apresentaram não passa de um pretexto. Eles já decidiram invadir Delon.
— Reconheço que fala com conhecimento de causa, senhor — falou Parcelos. — É possível que esteja correto, afinal após a morte de seu mestre o Império das Sombras entrou num período de progressiva obscuridade, e nossas relações só fizeram se deteriorar. Por outro lado, não podemos considerar seu julgamento como isento, em função das presumíveis mágoas que deve guardar.
— Senhor, mágoas eu tenho — continuou Sironiel. — Estou com quarenta anos de idade, e este Império me tirou muitas coisas. Na infância a liberdade, na juventude, o lar e agora novamente a sua ameaça se faz presente. Sim, meu julgamento não é imparcial. Eu, que já presenciei o poder zainiquiar por mais de uma vez, devo adverti-los que esta terra está prestes a sentir o seu peso.
— Levaremos em consideração suas palavras, senhor. Tenha a certeza de que não a menosprezaremos — falou meu pai. Tinha sérias dúvidas que estivesse sendo sincero. — No entanto, acredito que devemos deixar as possibilidades em aberto, por enquanto.
— Obrigado, Majestade. Peço que me perdoe pela minha exaltação. É que tenho em alta conta este reino que me acolheu. Estou certo que farão a melhor escolha — falou o homem por fim. O Governador já ia comentar alguma coisa quando o Rei Parcelos o interrompeu.
— Escute, Sironiel, o filho de Zairom também estava vivendo em Tansis, não estava? Que fim levou ele?
— Não está morto, Majestade, se é o que pergunta. Mas está gravemente enfermo, sofrendo de delírios.
— Ele lutou bravamente na batalha dos desfiladeiros. Devo dizer, Majestade, que nunca vi mago tão poderoso. No entanto, deve ter sido envenenado, daí a razão de sua doença — considerou o Governador.
— Se é assim, devemos tratá-lo o quanto antes — sugeriu meu pai. — Se a guerra vier, não poderemos abrir mão de um mago poderoso, ainda mais com o conhecimento dos artifícios dos místicos zainiquiares. Minha filha é uma Sacerdotisa da Rosa Negra, com grande prática em remédios curativos. Tenho certeza que terá prazer em ajudar — completou meu pai. Agora entendia o porquê de tanta consideração para com o filho de um nobre morto. Por certo, era uma espécie de punição pelo meu atraso, pois qualquer outra sacerdotisa poderia fazer o trabalho. Não era uma tarefa digna de uma princesa. Pensei em dar uma desculpa, mas isto seria bastante indelicado com os tansianos. Meu pai, percebendo minha relutância, considerou: — Afinal, minha filha, você mesmo afirmou que seria prestativa da forma que pudesse, não é mesmo? Tenho certeza que está ansiosa para ajudar.
Não havia escapatória. Meu pai estava certo: eu havia concordado em ajudar. Não podia simplesmente recusar o pedido. O melhor era aceitar o fardo, dar uma olhada no enfermo, escolher a erva adequada e depois nomear outra sacerdotisa para o meu lugar. Não demoraria quase nada. Os alojamentos dos refugiados não eram distantes do palácio. Antes da hora do almoço já estaria de volta. Além do mais, calaria a boca de muitos daqueles (começando pelo meu próprio pai) que me consideravam uma pessoa egoísta.
— Será uma honra, Majestade — concordei.
O Governador, então, tomou a palavra e começou a repetir tudo o que já havia dito. Os conselheiros deram suas opiniões. A maior parte parecia estar disposta a negociar. Na verdade, amavam a paz e temiam uma guerra com o Império das Sombras. Não se pode condená-los por isso. Mas analisando a questão com a experiência que tenho agora, mostra-se evidente que aquela mensagem enviada pelo Larcon não era mais do que um teste. Ele queria medir nossa coragem, nossa força. Mais do que isso, queria comprovar uma suspeita. Ele estava quase certo de que a paz prolongada havia enfraquecido Delânia. Seus generais provavelmente haviam argumentado que uma guerra conosco seria custosa demais. Mas ele teria retrucado que nosso povo era fraco. Não uma fraqueza de armas, ou de poder econômico, não era isso. Tratar-se-ia de uma fraqueza de espírito, uma natural aversão à violência que tornaria Delon um adversário muito mais fácil do que em outras circunstâncias seria de se esperar. Ao acenar com a possibilidade de um acordo, os conselheiros só estariam confirmando tais suspeitas e reforçando ainda mais os sonhos de conquista do Larcon. Mas eles não eram capazes de fazer esta análise.
Finda a discussão, o Conselho se retirou para outra sala. Iriam deliberar. Provavelmente demorariam muitas horas, ante a gravidade da questão. Quanto a mim, queria me livrar de minha obrigação o quanto antes. Por isso, fui até Sironiel, que já deixava a sala sem me esperar.
— Senhor Sironiel, espere! — gritei. O homem se deteve ante meu chamado, mas parecia relutante. — O senhor esqueceu das ordens do Rei? Devo cuidar do seu amigo.
— Eu agradeço, Princesa. Acho que ele precisa mesmo de cuidados — falou Sironiel de forma hesitante.
— Então, qual o problema?
— Rairom disse que não queria ser tratado. Ele afirmou que seria inútil e me fez prometer que não levaria ninguém.
— É mesmo? Estranho — comentei. Já que era assim talvez não precisasse ir vê-lo. Entretanto, conhecendo meu pai como conhecia, sabia que ele pediria um relatório completo, não porque se importasse com Rairom, mas simplesmente para aferir se eu cumprira minha tarefa. Era melhor que eu, pelo menos, soubesse do seu estado, até para ter o que relatar. — Escute, meu caro, eu vou fazer uma pergunta: o senhor acha que o estado do seu amigo é grave? Porque se for, eu acredito que é mais sensato permitir que vá examiná-lo, apesar da promessa que fez a ele.
— Vossa Alteza está certa, é claro — concordou Sironiel, depois de pensar um pouco. — Venha comigo. Vou levá-la até Rairom.
Deixamos o Palácio numa carruagem negra pertencente a Sironiel. Para minha insatisfação, descobri que não estavam alojados no mesmo lugar que os outros refugiados, mas sim numa residência do outro lado da cidade. Quando perguntei a quem pertencia, Sironiel explicou que era de sua mulher. Foi só então que descobri que aquele homem de vestimentas despojadas e hábitos simples tinha um certo patrimônio, que incluía inclusive uma fazenda. Quando percebeu minha surpresa, ele esclareceu que todos aqueles bens eram de sua mulher e não dele próprio. Explicou que trabalhava como ferreiro não porque precisasse, mas porque tinha horror ao ócio.
As ruas da cidade estavam silenciosas naquele dia. A agitação habitual de Delon dava lugar a um ambiente lúgubre. As poucas pessoas na rua confirmavam a impressão de uma cidade fantasma. Era como se todos quisessem se esconder da ameaça iminente, ou buscassem em suas casas o refúgio que a tartaruga encontra na casca. Certamente, por causa disso, conseguimos atravessar a Cidade em pouco tempo. A grande avenida principal, que se estendia do Palácio, na extremidade sul da cidade, até a Basílica da Dualidade, situada à beira da muralha norte, foi o nosso corredor. A casa de Sironiel ficava fora da parte murada. Não era uma mansão, mas tinha um amplo jardim. Não havia flores. Em Delon, porém, os jardins são sempre verdes, pois as folhas de nossas árvores nunca caem. A construção de dois andares era elegante, embora não fosse suntuosa. Assim que chegamos, um garoto de aproximadamente nove anos veio nos receber.
— O senhor já voltou! Nós já almoçamos. Mamãe pensou que o senhor não voltaria tão cedo. Vou avisá-la que o senhor já chegou — falou o menino, que parecia ter uma vocação natural para ser prolixo.
— Princesa, este é meu filho mais velho, Quiarom.
— Presumi que fosse seu filho. É um belo garoto.
— Obrigado. Meus filhos são tudo para mim.
— Então não é seu único filho?
— Não. Tenho uma filha de seis anos. Vossa Alteza vai conhecê-la.
— Será um prazer. Vamos?
Desci da carruagem. Apesar de ser inverno e estar nublado, o dia estava quente, abafado, o que, aliás, não era incomum em Delon. Por isso, foi um alívio entrar naquela residência acolhedora. A temperatura em seu interior era bastante agradável. Assim que abrimos a porta, uma mulher da idade aproximada de Sironiel veio nos receber. Era esbelta e alta, um pouco mais alta do que eu. Em sua fisionomia o que me chamou a atenção foi o olhar. Ele dava àquela pessoa uma presença, uma força surpreendente, realçando seus traços físicos.
— Minha querida, esta é a Princesa Ariela Delonien. Ela veio cuidar de Rairom — explicou Sironiel.
— Prazer em conhecê-la, Alteza. É uma honra recebê-la em nossa casa — falou ela, cerimoniosamente. Apesar de falar perfeitamente a Língua de Oréu, pude perceber em sua voz um leve sotaque igual ao de Sironiel. — Eu sou Sarian Zangalast — apresentou-se ela. Era de fato muito formal. Devia ter tido uma educação bastante rígida.
— Tem uma bela casa, senhora.
— Obrigada pelo elogio. Não é comparável ao palácio que tínhamos em Lor-Zainan, mas suponho ser ela parte do pouco que restou da riqueza de meus ancestrais.
— O pai de Sarian era o senhor da Terra da Água, um dos feudos mais poderosos da ilha Zainíquia. Infelizmente, ele partilhou do destino do pai de Rairom — explicou Sironiel.
— Lamento muito, senhora. Não pretendia trazer-lhe lembranças tristes.
— Eu é que peço desculpas — falou Sarian, esboçando um sorriso. — Não pretendia ser arrogante e amarga. Não sou uma pessoa infeliz, Princesa. Muito pelo contrário, estou muito satisfeita com o que a vida me deu. Meu verdadeiro tesouro é minha família. Não a trocaria nem por todo o ouro do mundo — disse ela. Parecia estar sendo sincera. Assim que terminou de falar, uma menina de seis anos veio trazendo uma bandeja. Nela havia copos com uma bebida alaranjada. Era um suco de frutas. — Obrigada, minha filha — disse ela ao pegar a bandeja. — Aceita um copo de suco, Princesa? É bem refrescante nestes dias de calor. E como faz calor em Delânia! — comentou ela. De certo, ainda se lembrava do gélido clima de sua terra de origem.
— Obrigada.
— Eu mesma que fiz — disse a garota, que mais parecia uma bonequinha. Era uma criança muito bonita.
— Está delicioso. Qual é o seu nome?
— Aliel.
— Era o nome de minha mãe — esclareceu Sironiel.
— Quer ver minhas bonecas? — indagou a garota.
— Minha filha, onde estão seus modos? Vá brincar com seu irmão. A Princesa não pode lhe dar atenção. Ela veio cuidar do tio Rairom, que está doente.
— Está bem, mamãe — disse ela contrariada. Saiu em seguida.
— Vamos sentar? — pediu Sarian.
Nós sentamos e conversamos por mais ou menos meia hora. Falamos de assuntos diversos, dos quais não me recordo bem. Pelo que me lembro, Sarian me contou algo sobre sua vida na Terra das Sombras, sobre terríveis eventos que levaram ao seu exílio, sobre como conseguira levar uma reserva secreta de ouro no navio que utilizaram na fuga. Falou um pouco também sobre sua vida em Delânia. Quanto a Rairom, explicou que não acreditava que se tratasse de veneno, mas não estava certa. Relatou que ele realmente precisava de ajuda, pois havia piorado muito nos últimos dias. Tudo que fazia era dormir num sono tormentoso, do qual não acordava. Sem mais delongas, pedi para ver o doente.
Subi as escadas. Sironiel foi comigo. Ele me indicou em qual dos quartos Rairom estava. Pedi que ele me deixasse cuidar do enfermo sozinha. Ele assentiu. Fui em direção à porta escura, inconsciente da relevância do encontro iminente. Lentamente a porta se abriu. Logo a minha frente estava um homem jovem, pouco mais velho do que eu, estirado em sua cama, adormecido. Era, de fato, um sono agitado, o que se aferia pela velocidade de sua respiração. Estava também todo suado. Que espécie de enfermidade poderia causar tais sintomas? Havia algumas possibilidades. Era muito provável, porém, que um tratamento para aquele mal estivesse além dos meus conhecimentos. Havia algumas ervas que poderia utilizar, entretanto, dificilmente alguma delas funcionaria. Sentei-me junto à cama. Toquei sua testa e vi que estava febril. Sua barba estava por fazer, o que acentuava o estado lastimável em que se encontrava. Senti seu pulso, percebendo que seu coração batia rapidamente. Era como se estivesse numa batalha, lutando por sua vida, embora, a cada respiração, parecesse estar mais próximo da derrota. Sua pele já trazia uma certa palidez, fruto deste conflito.
Pensei em uma ou duas ervas que poderia prescrever-lhe. No mais, não tinha o que fazer além de pedir que minha mãe indicasse um sacerdote experiente para o caso. Seria até imprudente agir de outro modo. Quando pensei em me levantar, porém, os olhos de Rairom se abriram. Estavam arregalados. Seu rosto estampava um misto de desespero e cansaço.
— Estou acordado! — exclamou ele. — A voz! De novo a voz! Devo cortar os meus ouvidos? Acho que nem assim pararia de ouvir.
— Descanse, Rairom, você está delirando — disse ela.
— Ele quer falar, mas eu não quero ouvir. Alguerot, alguerot, essa palavra fica ressoando em meus ouvidos! Meu único refúgio são os pesadelos — lamentou ele. Sua voz perdia intensidade rapidamente. Ele perdia suas forças.
— Vou buscar ajuda — disse. Na verdade, estava com medo, assustada com aquela situação. Rairom, desesperado, usou suas últimas energias para me segurar pelo braço.
— Por favor, ajude-me! — implorou ele, para depois adormecer novamente. Tentei acordá-lo, mas foi inútil. Estava mergulhado novamente naquele sono agitado. Não havia mais nada que pudesse fazer. Resolvi me retirar. Abri a porta. Desci as escadas chamando por Sironiel. Este, porém, não me ouvira. Chamei pela senhora Sarian, mas ela também não me atendeu. Concluí que deviam estar do lado de fora. Quando abri a porta, porém, tive uma grande surpresa. O jardim havia desaparecido! A cidade havia desaparecido! A minha frente se estendia um árido deserto de pedra. O céu, de um rubro opaco, era horripilante. Tentei evitar o pânico. O que poderia ter acontecido? Aquela visão simplesmente não poderia ser real, apesar dos meus sentidos indicarem o contrário. Mais se parecia com um sonho. Um sonho? Teria alguma coisa a ver com Rairom? Fechei a porta daquele mundo assustador e voltei até o quarto do enfermo. Quando lá cheguei, ele também não estava mais lá. Havia, porém, um menino brincando silenciosamente ao lado da cama.
— Qual o seu nome? — perguntei.
— Meu nome é Rairom — respondeu ele. Era o que eu pensava. Aquilo era mesmo um sonho. De alguma forma, eu estava aprisionada no sonho de outra pessoa. Rairom havia inconscientemente atuado sobre minha mente, fazendo com que eu partilhasse de suas visões. Já naquele momento, de certa forma, intuí esta realidade.
— Você mora aqui? — indaguei.
— Não — respondeu o menino. — Eu estou preso aqui. O monstro me mantém preso. Ele governa este mundo. Mas pelo menos aqui dentro de casa ele não entra — completou ele.
— Monstro? Que monstro?
— Ele vive num castelo em ruínas, perto dessa casa. É só sair pela porta e seguir em frente. Mas eu não vou até lá. O monstro é perigoso. Ele me mantém prisioneiro.
O que deveria fazer? Quase entrei em pânico. Esforçava-me para acordar. Tudo em vão. Estava tão prisioneira daquele suposto monstro quanto ele próprio. Depois de algum tempo, recobrei a frieza. Comecei a racionalmente buscar uma saída. A primeira coisa que devia ter em mente é que tudo aquilo não passava de um sonho. Portanto, nada poderia me ferir. Ponderei que se Rairom acreditava que o mostro o mantinha preso, talvez essa criatura fosse a chave para a saída. Infelizmente, a única forma de descobrir se estava certa era indo pessoalmente confrontá-lo. Era uma possibilidade apavorante, mas não parecia haver outra saída. O desejo de me livrar daquela situação incômoda foi mais forte do que o medo. Eu desci novamente as escadas.
Pisei no chão quente daquele deserto. Fazia um calor quase insuportável, apesar do sol não ser visível. Ao longe, pude avistar as ruínas que Rairom mencionara. Era impressionante como tudo parecia real. Não havia a fluidez própria dos sonhos. A impressão que se tinha era que se tratava de um outro mundo, tão verdadeiro quanto a própria realidade. Aquela constatação só serviu para aumentar ainda mais o meu espanto. Senti que se hesitasse ficaria paralisada pelo medo. Em conseqüência, pus-me quase imediatamente a caminho, no passo mais acelerado que consegui. Não corri, pois não conseguiria chegar muito longe, não com aquele calor. Infelizmente, constatei que nem andando lograria êxito. Quando, depois de um certo tempo, cruzara a metade do caminho, não conseguia dar mais nem um passo sequer. Caí no chão imobilizada pelo cansaço e pelo calor. Mas eu não podia estar cansada, afinal não despendera verdadeiro esforço físico. Isso era provavelmente verdadeiro, mas nem que tentasse por um milhão de anos, conseguiria convencer minha mente desse fato. Jogada ao chão, inerte, fiquei assim por um longo tempo, durante o qual minha consciência se perdia pouco a pouco. Comecei a duvidar de que minha morte naquela realidade não implicaria o meu fim também no plano físico. Foi quando um homem se aproximou. Ele tocou no meu rosto e, no instante seguinte, a sensação de calor desapareceu. Em seguida, deixei de me sentir cansada. Ao contrário, estava revigorada, fortalecida. Minhas forças retornaram e eu pude me levantar.
— Ariela, acho que já está se sentindo melhor, não está? — disse um homem.
— Obrigada. Eu me sinto muito bem agora. O calor e o cansaço se foram. Quem é você? — indaguei, já que sua face era escondida por um capuz.
— Minha identidade não importa. Lembre-se: isto não passa de um sonho. Mas se quer saber, de certa forma, eu também sou Rairom. Eu sou a parte dele que já sabe o que o seu eu consciente insiste em desconhecer — falou ele de forma serena. De fato, sua fisionomia era idêntica a de Rairom. Foi o que percebi quando retirou o capuz. Havia, porém, algo de estranho nele. Era algo no olhar, no sorriso, quase como um detalhe que se mostrava e depois de escondia. Mas era uma característica tão tênue, uma impressão tão leve, que quase me passou despercebida naquele momento. — Esta loucura precisa acabar, Princesa — continuou ele. — Rairom está preso nesta teia de eventos que ele mesmo construiu. Tudo isto aqui não passa de uma fortaleza de sentimentos, uma realidade construída com base na relutância. O trágico é que esse esforço sobre-humano não passa de uma afronta à razão, pois aquilo que Rairom se recusa a ver é, justamente, o que ele mais procura. Toda esta dor, esta angústia e sobretudo esta clausura são despropositadas.
— Não entendo o que diz, senhor — disse a ele. Em minha inocência, era incapaz de mesurar o alcance daquelas revelações.
— Você não precisa entender, Ariela. É até melhor que não entenda. Basta que explique ao Rairom relutante que este mundo não é necessário, que sua existência não tem propósito. Peça-lhe para parar de resistir, pois, como recompensa, obterá as respostas que tanto deseja. Eu já tentei explicar isso a ele, mas foi em vão.
— Eu farei isso, senhor. Devo então voltar à casa?
— Não. Lá está o Rairom prisioneiro. O Rairom que reluta você encontrará nas ruínas à frente. Um último aviso: não se engane com sua forma. Adeus — falou ele antes de desaparecer no nada. Pelo que aquela presença havia dito, estava claro que Rairom era o seu próprio captor, o monstro que o aprisionara era ele mesmo. Vendo as coisas por este prisma, tudo parecia bem menos assustador. A situação estava, sem dúvida, melhorando. Só o fim do cansaço e do calor já eram um bálsamo maravilhoso. Mas o que realmente me alegrava era a certeza de que aquele pesadelo estava próximo do fim.
Com o ânimo e a energia revigorados, segui em direção à fortaleza. Ela não parecia mais tão distante agora que o calor havia passado. Por isso, não tardei a chegar a sua base. Não era bem uma fortaleza. Mais se parecia com um amontoado de pedras que lembrava uma edificação em ruínas. As gigantescas muralhas possuíam fendas igualmente colossais. Por uma delas eu entrei. O interior era de um silêncio absoluto. Até mesmo meus passos deixaram de fazer barulho. Também predominava a escuridão. Não era possível ver coisa alguma. Por isso, resolvi não me afastar muito da fenda. Qual seria o próximo passo? Antes que pudesse decidir, fitei duas pequenas luzes avermelhadas que emergiam da escuridão. Silenciosamente, elas vieram em minha direção. Ao se aproximarem comecei a vislumbrar um vulto. Era uma criatura que se assemelhava a um chacal. Os sons que emitia, ao menos, eram muito parecidos com os desse animal. Estava faminto. Era o que indicava a saliva gosmenta e branca que caía de sua boca. Seria aquela criatura repugnante a forma que Rairom assumira? A presença insistiu para que eu não me surpreendesse. Mas aquela forma bestial, que se aproximava cada vez mais, parecia tudo menos humana.
— Rairom, é você? — indaguei. Um grunhido medonho foi tudo o que obtive em resposta. A criatura já estava bem próxima, pronta para atacar. Pensei em fugir, mas quando olhei na direção da saída, outros chacais lá estavam.
— Fique imóvel! — disse uma voz. De fato, não tinha outra escolha a não ser obedecer, pois estava cercada por aqueles chacais de cintilantes olhos vermelhos. Um deles deu o bote, saltando na minha direção. Por algum motivo, porém, ele colidiu com uma barreira invisível e retrocedeu. Olhei para o chão e percebi que um círculo branco e brilhante havia surgido. — Haja o que houver, não saia do círculo — ordenou a voz. Os chacais se afastaram, de modo que a saída ficou desbloqueada. Não estava muito longe dela. Por isso, fiquei tentada a correr em sua direção, mas hesitei. Era perigoso demais sair do círculo. Tentei buscar a fonte da voz. Foi quando percebi um outro círculo branco, a uma certa distância do meu. Um vulto lá se encontrava.
— Quem é você?
— Nem pense em correr em direção à saída — advertiu o vulto. — Eles querem tentá-la a sair do círculo. Muito antes que conseguisse chegar até o exterior, você estaria morta.
— Você não ouviu minha pergunta?
— Eu sou aquele que você confundiu com os chacais.
— Então, você é Rairom? — indaguei à figura enquanto tentava perceber sua forma. Era humanóide, mas havia algo de diferente nele. Apesar de estar parcialmente coberto pelas trevas, pude perceber que o vulto tinha um par de asas, como as de um morcego, que apareciam e desapareciam.
— E quem é você?
— Você não se lembra?
— Não, não me lembro. Deve ser alguma memória, algum elemento desse pesadelo.
— Que círculo é esse?
— É a forma que encontrei para me defender dos chacais. É um círculo de luz. Quando vim a este lugar pela primeira vez não havia chacais. Eles surgiram mais tarde. Tentei lutar contra eles, mas foi inútil. Eles só me enfraqueceram. Finalmente, percebi que podia mantê-los afastados com isso. O problema é que eles estão ficando mais fortes.
— Rairom, nós temos que sair deste pesadelo.
— Você não sabe o que está dizendo. Este lugar ainda é melhor do que o outro pesadelo.
— Que outro pesadelo?
— O lugar que chamam de vida real.
— Não seja ridículo! Não pode estar falando sério!
— Para alguns talvez não seja tão ruim. Mas eles não carregam um fardo como o meu.
— Rairom, seja razoável, nada pode ser pior que este lugar! Pense bem, por quanto tempo ainda vai querer ficar aqui? Por quanto tempo esta situação será sustentável? Você mesmo disse que os chacais estão ficando mais fortes.
— Você diz isso porque não sabe o preço que tenho de pagar para que o meu retorno seja possível. A voz deseja falar, mas eu não quero ouvir.
— Você está absolutamente certo disso? Talvez esse preço de que fala não exista. Talvez essa voz que você mencionou revele o que você tanto busca saber — afirmei, transmitindo o recado do outro eu de Rairom. Ele ficou em silêncio por alguns momentos, revelando uma certa dúvida. No entanto, qualquer fragmento de indecisão pareceu se dissipar quando ele afirmou:
— Isso sim é ridículo! Ela nunca me revelaria o que quero saber.
— Preste atenção, Rairom, enquanto você não resolver sair desse sonho, eu também estou presa aqui. Se você prefere ficar, eu não penso desse modo. Você não tem o direito de escolher por mim.
— Mas quem é você?
— Eu tentei ajudá-lo, não se lembra? Tente se lembrar! De algum modo eu fui arrastada para este mundo.
— Eu me lembro vagamente, acho que me lembro. Se você é mesmo ela, sou obrigado a concordar com o que disse. Lamento que tenha vindo parar nesse pesadelo. Mas não sei se posso atender seu pedido. Não sabe o que me pede.
— Pense, Rairom. Esta é a sua única opção. Pondere tudo o que eu disse.
— Eu lamento. Simplesmente não posso — afirmou ele, intransigentemente. Por hora, eu me dei por vencida. Tinha que pensar em outra forma de convencê-lo. Ele estava claramente em dúvida. Sabia que não tinha escolha, que só estava postergando o inevitável. Só precisava fazê-lo decidir. Felizmente e infelizmente, os chacais se encarregaram de acelerar o processo. Digo infelizmente, pela forma com que agiram. Nutridos de uma revigorada confiança, eles começaram a investir contra o círculo em que me encontrava. Primeiro veio um chacal solitário, que era um pouco maior que os demais. Depois vieram os outros. Com uma fúria assassina, eles investiram contra minha etérea proteção. Eles saltavam e eram repelidos violentamente, mas sem demora retornavam e saltavam novamente. Foi, certamente, uma das experiências mais marcantes, em termos negativos, de toda minha vida. O que a tornava aterrorizante era a proximidade a que os chacais conseguiam chegar antes de serem repelidos. A impressão que eu tinha era a de que a qualquer momento um deles conseguiria chegar até mim. Depois de uma série de saltos, era isto mesmo que estava para acontecer. O círculo se rompia, ante a força sedenta de sangue daquelas criaturas. Um estranho chiado, como o do vidro que se quebra, noticiou o rompimento final do círculo. O desenho não mais estava sob meus pés. O único círculo que persistia era o dos chacais que salivavam com mais vigor, ansiosos por sua refeição. Gostaria de dizer que gritei por socorro, mas isto não é verdade. Estava paralisada pelo terror. Quando a maior daquelas criaturas saltou em minha direção, tudo que pude fazer foi fechar meus olhos. A dor que esperava sentir, porém, não se fez presente. Quando os abri, notei que tinha sido erguida no ar. As asas negras de morcego batiam ao meu lado. Era Rairom. Ele havia me salvado.
Em um lugar elevado ele me deixou. Pousou então numa pedra, como um grande pássaro que pousa num galho. Eu tentei olhar para o seu rosto, mas as trevas continuavam a encobri-lo.
— Rairom, você me salvou — disse a ele.
— Sim. Mas os chacais assumem outras formas quando necessário. Não estamos seguros. O círculo de luz não pode mais detê-los.
— Rairom, você tem que decidir agora.
— Eu já decidi. Vou abrir o baú.
— Baú?
— É no baú que se encontra a voz — disse ele. Depois mergulhou nas trevas. Esta foi a última imagem daquele pesadelo. Literalmente, num piscar de olhos fui jogada para fora dele. A minha frente se encontrava o leito de Rairom. Eu estava livre! Assim que despertei, vi que Rairom também abria os olhos. Sua expressão era tranqüila. Antes que pudesse conversar com ele, notei que Sironiel entrava.
— Então, Princesa, o que achou do nosso paciente?
— Bem, acho que ele já está curado — afirmei, ainda um pouco desnorteada.
— Mas tão rápido? Não faz nem um quarto de hora que eu a deixei aqui e agora me diz que ele está curado? — indagou ele. Era impressionante como havia um descompasso entre o tempo do sonho e o da vida real. Era como se horas tivessem se passado, ainda assim, foram apenas alguns míseros momentos.
— Como se sente, Rairom? Diga a seu amigo.
— Eu nunca me senti melhor — respondeu ele, ainda sonolento. — Eu estou muito bem.
— Viu o que eu disse?
— É impressionante. Como conseguiu? — indagou Sironiel, ainda abismado.
— É a herança de Delon, meu caro — afirmei brincando. — Nós somos uma gente de sorte. Nossos desejos freqüentemente se realizam.
— Eu já tinha ouvido falar disso, minha querida Princesa, mas confesso que só agora começo a acreditar — afirmou Sironiel. Nós três rimos, não porque houvesse algo de engraçado, mas sim porque, ainda que por razões diversas, estávamos todos felizes e aliviados. Era como se a herança de Delon, a promessa de felicidade eterna que nosso fundador nos fizera, tivesse, naquele frágil momento, se concretizado. Mas, por mais que gostasse de me iludir, eu sabia que o verdadeiro legado do Patriarca era bastante diferente. No futuro próximo, eu me defrontaria com o peso daquela herança.
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