O Livro de Dinaer
Sinopse
O primeiro dos quatro livros é narrado por um ser imortal e sobre-humano conhecido pelos alguianos e algarianos como o Grande Guia ou Dinaer. Por meio da voz do Grande Guia, narra-se a saga de Rairom Guenor e de seu irmão mais novo, Tairom. No Livro de Dinaer, os dois enfrentam grandes dificuldades, em decorrência da guerra travada entre seu pai, Zairom Guenor, e o Imperador Fairom Norgat. É um livro sobre a mudança e as perdas que o tempo traz. Uma história em que a adaptação à nova realidade é um imperativo para a sobrevivência.
Texto Introdutório:
“A minha senhora revelou-me, por meio de imagens, uma antiga profecia. Esse segredo ela partilhou apenas comigo e com aquele que a Irmandade chama de Dinaer. A profecia fala de um tempo de decadência, quando dos velhos impérios só restarem escombros. Fala de um lugar onde o frio da neve encontra-se com o calor do magma dos vulcões: uma grande ilha no sul do mundo. Lá nascerá o alorain, aquele que proclamará o retorno da antiga guerra, o conflito que definirá o destino de homens e deuses. Meditei sobre essas imagens por dois longos dias e, depois, exausto, adormeci. Em meu sonho, vi a face do rapaz, ainda muito jovem. Vi também um grande exército, que marchava sobre as terras planálticas. Compreendi que a vida do alorain estava por um fio! Como poderia ele enfrentar tal obstáculo? Teria que fugir? Mas para onde? Quando tentava vislumbrar o que aconteceria, surgiu diante de mim a face do deus da Irmandade, Dinaer. Ele observava o rapaz e aqueles que o acompanhavam e parecia compreender tudo o que transcorria muito melhor do que eu. Senti um forte desejo de conhecer a história do alorain. Queria saber se ele conseguiria sobreviver para depois cumprir seu destino! Acordei, porém, naquele instante e as imagens se perderam...” (autor desconhecido — Pergaminhos de Aquelam)
Prólogo:
Num dia nublado, Ele veio até mim. Ele é Dinaer, a luz suprema que guia a Irmandade. Eu sou a Reverenda Madre Amoel Gliam, uma guardiã do conhecimento antigo nestes tempos de incertezas. Sou a encarregada do Mosteiro das Queialiam, um santuário de luz num mundo em que a escuridão ainda prevalece. Talvez por isso Ele tenha me escolhido.
Quando o encontrei, os longos e numerosos afazeres de mais um dia de labuta haviam consumido minhas energias. Não era mais jovem como antes. No entanto, nunca usei a idade ou o cargo como escusa para me livrar de minhas responsabilidades. Isto porque considero a disciplina uma das qualidades mais caras e ao mesmo tempo mais difíceis de se conquistar. Mas aquele que vive nestas montanhas, seja homem ou mulher, ou aprende sua lição de força ou perece. Depois de longos anos, a solidez destes montes pedregosos é indelevelmente apreendida por aqueles que aqui vivem. Por isso, eu não sucumbi com a surpresa de sua chegada.
Quando entrei em meus aposentos, lá estava Ele em toda a sua grandeza. De seu corpo uma luz extravasava e em seus olhos flamejava um fogo escarlate. Uma luminosidade intensa invadia todo o cômodo, ofuscando a minha vista. Seria uma ilusão? “Quem é você, presença, que invade este santuário de paz?”, indaguei. Confesso que o medo, um sentimento tão torpe, invadiu meu coração. Sabia muito bem que o velho Observador tem muitas formas e faces. “Se você é o Inimigo, ou por ele foi enviado, eu ordeno que se vá, em nome do poder que protege a todos nós da Irmandade! Eu o invocarei se preciso for!”, exclamei. Estava disposta a não me curvar. Neste instante, porém, pude sentir que suas intenções não eram hostis. Ele ligou nossas mentes e eu experimentei o amor que Ele sentia pela grande Causa. Não, ele não era o Inimigo. “Amoel, tais blefes são desnecessários. Estamos do mesmo lado. Você sabe muito bem quem sou eu, não sabe?”, indagou Ele com uma voz cativante e melodiosa, qual fina música. Meus ouvidos não ouviram tais palavras, que ecoaram diretamente em minha mente.
Caí de joelhos. Sim, eu sabia quem Ele era. Ao me aperceber de sua identidade, maior se tornou meu espanto. Poucos foram aqueles a quem foi dada a honra de sua presença. Raros eram os momentos em que o Grande Guia se fazia presente entre os homens. “Por que, Sublime Guia, me honra com sua presença? O que eu fiz para merecer tal dádiva?”, perguntei. E Ele disse sem rodeios: “Reverenda Madre, escreverá um livro conforme eu lhe ditar, como se eu mesmo o escrevesse. Caberá a você contar a história do primeiro dos sete alorain”.
Em minha mente imagens e palavras começaram a surgir e a se concatenar, formando a seguinte história que eu transcrevi em nome Dele.
Capítulo 1: Surpresa ao Amanhecer
Eis que se inicia a saga final na infância de uma raça e de uma pessoa. É assim que há de raiar um novo dia, que não se porá até que a raça se torne a pessoa e a pessoa, a raça. Como podem os passos do escolhido ser mais rápidos do que os de sua raça se em tais passos está o selo do destino de ambos? Será sempre lembrado aquele que lutar pela luz, mesmo num mundo de trevas? Eu lembrarei daquele que ousar ascender, acender uma vela na escuridão... (Pergaminhos de Dinaer – Tomo III – Das Profecias e Promessas)
Na grande ilha do sul, em um tempo de decadência, sobre os escombros de impérios esquecidos, brotou a semente. E ela nasceu sob tormentosas circunstâncias, cresceu em pedregoso terreno, sob frio clima, sob grandes nevascas. Mas ela não pereceu. Ao contrário, persistiu e com ela um destino e uma mensagem. Pois a semente era o alorain, o arauto que proclamava o retorno da antiga guerra, a guerra subterfugia que se movia pelas sombras, por detrás dos destinos e anseios humanos, a guerra em que lutavam imortais. O que ele sabia desse conflito? Nada! Nem o alorain, nem nenhum daqueles que o rodeavam conheciam as velhas histórias, mortas, como fogo extinto, como memória que se torna mito, verdade e mentira misturadas. Contudo, o arauto faria com que todos percebessem que o passado nem sempre está morto e que as velhas memórias podem emergir de seu exílio e penetrar no domínio do presente. Mas essas são questões que a raça dos homens mortais, sempre distraída, sempre entretida em banalidades, geralmente escolhe ignorar. Prefere erguer novos impérios e repetir velhos e estúpidos jogos, sem saber que seus reinos, por mais poderosos que pareçam, são castelos feitos na areia, que o vento ou as ondas sempre estão a destruir. Sem saber que, muitas vezes, tornam-se, por sua imprevidência, joguetes de forças bem mais poderosas. Mas eu não culpo os pobres homens por seguirem sua natureza. Não se pode exigir deles a percepção de um imortal. Inevitavelmente, devem ser absorvidos por essas preocupações comezinhas, vãs no grande espectro do tempo, mas que têm certa relevância sob a ótica míope dos seres humanos.
É por isso que Zairom, no dia do nascimento de seu segundo filho, não conseguia estar totalmente feliz. A sombra do jogo dos mortais estava sempre a atormentá-lo. Afinal, ele era um jogador relevante, ocupava o trono dos filhos do fogo. Senhor feudal poderoso que era, nobre do grande Império do Sul conhecido como a Terra das Sombras, estava sempre envolvido em disputas, em jogos de poder. Um desses jogos o incomodava naquele dia em que o sol brilhou sobre os planaltos ocidentais, ao mesmo tempo em que a lua azul escondia-se sob as montanhas, acuada pelo calor e majestade do grande astro. Zairom observava um papel em suas mãos, uma mensagem do último confronto em que fora envolvido. Ele próprio, no coração, era um guerreiro, ou seja, gostava da luta que preenche a vida. Mas não lhe agradava aquela batalha repleta de dissimulação, de falsas cortesias e de mentiras. Sentia-se pouco confortável, por assim dizer, já que seu estilo era bem diferente. Tirou os olhos daquela mensagem, guardou-a em um bolso e observou pela janela o novo dia que nascia. Os primeiros raios de sol tocaram seu rosto. Sentiu-se um pouco melhor, mais feliz. Foi quando teve a idéia de chamar seu filho mais velho.
— Rairom, venha aqui agora mesmo!
O menino de quatro anos acordou assustado e confuso, mas atendeu o chamado do pai. Atravessou os corredores ainda cobertos de sombras, portadores de uma imponência peculiar àqueles lugares que o tempo envelheceu. Era assim, bela, repleta de riqueza, a residência do filho do fogo, sede daquele que era o mais próspero dos clãs.
— Ah, finalmente chegou, filho. Venha comigo. Tenho uma surpresa para você.
Zairom colheu seu filho mais velho nos braços e levou-o até um berço que ficava num quarto contíguo. Lá o menino viu um bebê recém-nascido.
— Filho, esse é seu irmão que acaba de nascer. O nome dele é Tairom.
— Esse é meu irmão?
— Meu filho, quero que vocês dois sejam muito unidos... Você deve protegê-lo e ele também o protegerá. É assim que os irmãos devem ser.
— Eu sei, papai.
Zairom colheu seu outro filho nos braços e sorriu sinceramente. Era como se a sombra de suas responsabilidades tivesse sido subitamente afastada. Mas foi muito breve esse momento, pois um velho temor, um temor diverso daqueles que o atormentavam, quis povoar sua mente. Era um medo maior do que os outros, já que envolvia o futuro de Rairom. Como seu pai, o menino possuía o sangue de um povo estrangeiro. Não era um Norgat, ao contrário do bebê, que dormia placidamente.
— Meu senhor, aqui estou — disse um homem de mais de sessenta anos que acabara de penetrar no recinto, juntamente com uma moça mais nova.
— Jonorat! Você já viu meu filho mais novo?
— Ah, sim, mestre Zairom! Eu já o tinha o visto. Sirat o levou até os criados, por ordem de sua esposa. Esse é mesmo um dia muito feliz!
— É verdade, meu amigo.
— Suponho que não pretenda sair hoje.
— Ao contrário, Jonorat. Chamei-o aqui porque preciso que prepare a carruagem.
— Mas até no dia do nascimento de seu filho pretende trabalhar, senhor?
— Ora, preciso averiguar certos assuntos... Não é nada muito sério, mas não gosto de adiar meus afazeres. Aliás, o que tenho de fazer hoje é verdadeiramente inadiável.
O velho fez uma mesura e retirou-se para desempenhar sua tarefa.
— Sirat, cuide de Rairom, está bem?
— Sim, meu senhor — disse a moça que era encarregada de tomar conta da criança. — Vamos, Rairom?
O menino relutantemente obedeceu. Desagrava-lhe a idéia de afastar-se daquela interessante novidade que era seu irmão. Assim que ele se retirou, Zairom recolocou seu filho no berço e ficou a observá-lo. Depois, deixou aqueles aposentos, desceu as escadas, mergulhando no grande átrio central, decorado com luxuosas tapeçarias, trazidas do distante continente, da ancestral cidade de Algar. Lá estava também o quadro do falecido Tairon Norgat, pai de sua esposa. Por um momento, a atenção de Zairom foi capturada pela expressão severa daquela figura. “Arrogante até depois de morto”, pensou. “Preciso mandar que levem a pintura a outro cômodo para que tenha a obscuridade que merece”, concluiu. Alcançou, por fim, o exterior da residência e foi recebido pelas graciosas e imperturbáveis colinas de grama que a margeavam. Lá também estava, igualmente silencioso, o cocheiro Jonorat e um menino de uns oito anos de idade.
— Seu neto vai conosco? — perguntou Zairom sorrindo.
— Apenas se isso não for um incômodo, mestre.
— Você sabe que é um prazer tê-lo conosco! Não se esqueça de que fui eu que o convidei. Jonalat, por que não vem comigo na cabine da carruagem? Você quer?
— Gostaria sim — respondeu o menino, sorrindo. Agradavam-lhe aquelas poltronas macias e o caráter suntuoso do interior do veículo.
— Para as minas, então?
— Para as minas.
Puxada por dois corcéis negros, a escura carruagem partiu acelerada, atravessando veloz a propriedade do senhor dos filhos do fogo em direção às Blai-lan, onde se localizavam as minas de metais preciosos e minério de ferro. Cruzavam a monótona paisagem, repleta de colinas gramadas e de plantações de cereais. Ao contemplar seus domínios, Zairom sentiu certo orgulho pelo que conquistara por meio do casamento com a filha de um nobre falido. Quem diria que o menino pobre que vagara muitas vezes pelo porto de Lor-Zainan a espera do pai iria um dia tornar-se o senhor absoluto da mais rica província do Império? Tinha mesmo razões para sentir-se satisfeito consigo mesmo. O orgulho, porém, rapidamente foi suprimido, ante a dolorosa consciência de suas novas responsabilidades. Nas suas mãos, não estava apenas o próprio destino mas, também, o futuro de muitos. Não podia dar-se ao luxo de cometer um erro sequer! Lembrou-se da mensagem que recebera pela manhã e ficou taciturno. Sentia que algo relevante estava para acontecer e que precisava agir, mas faltavam-lhe subsídios... Subitamente, sua meditação foi interrompida por uma redução brusca na velocidade do veículo.
— Há algumas pedras bloqueando o caminho, mestre Zairom — apressou-se a informar o cocheiro. O velho fora forçado a parar a carruagem por completo.
— Parece que caímos em uma armadilha, Jonorat — afirmou o senhor dos filhos do fogo. Sua análise era adequada. O risco de ataques não era jamais desprezível, já que ele, como os demais nobres, travava um confronto silencioso com a imensa população de escravos que habitava o Império. Não eram incomuns as revoltas e rebeliões. Talvez fosse por isso que Zairom não se surpreendeu quando cerca de dez homens cercaram o veículo. Eram liderados por um jovem de não mais de dezoito anos, que o cocheiro não teve dificuldade em reconhecer.
— É tarde demais para voltar — disse o rapaz. — Ao que parece, esse seu hábito de andar sem escolta acabou provando-se fatal, não é mesmo, Zairom Guenor?
— Sironiel, é você! — exclamou o velho, consternado.
— Sou eu mesmo, tio. Eu lhe disse que conseguiria escapar, não é mesmo? E o senhor não acreditou...
— Não seja louco, Sironiel! O que espera conseguir com isso?
— Ora, não é evidente? — perguntou o jovem.
— Se quer escapar, por que simplesmente não foge, meu jovem? Vá para o Deserto de Pedra, ou para qualquer outra parte — sugeriu o filho do fogo, que parecia intrigado com a atitude do rapaz. — Por que veio me importunar? — completou ele, descendo do veículo.
— Alguém tem que fazer você pagar pelos seus crimes, senhor de escravos!
— Sironiel, você está louco! Quer destruir nossa única esperança? Mestre Zairom é filho de alguianos e está no trono da Terra do Fogo!
— Ele é filho de um traidor alguiano, tio. De um banido, de um exilado que não hesitou em enriquecer com o comércio de nossa própria gente escravizada! Além do mais, ele não é alguiano. Já nasceu nessa terra amaldiçoada, esquece-se disso? Ele não se esqueceu! Tanto isso é verdade que nossa vida continua igualmente miserável!
— Você é um tolo, rapaz! O que esperava que ele fizesse em tão pouco tempo? Ele está no trono dos filhos do fogo há menos de dois anos.
— Tudo que sei é que não suporto mais essa miserável vida de escravo. Lembro-me de quando era criança, de como vivíamos bem, meu pai era um general respeitado, minha mãe praticava a arte da cura... Ainda me lembro do dia em que o legionário entrou em nossa casa, incendiou-a e nos fez prisioneiros. Como espera que me conforme com a vida que levo agora?
— Por que está me dizendo isso? Eu estava lá, não se lembra? Eu estava em Algar quando a cidade foi destruída!
— Eu sei muito bem. Ainda assim é um covarde, tio! Escolhe servir ao nosso opressor. Pois eu sou como meu pai. Prefiro lutar pela justiça!
Jonorat emudeceu-se ante esse comentário, pois via nele certa verdade. De fato, ele admirava a personalidade de seu sobrinho, justamente por ser parecido com o pai. O irmão de Jonorat era assim: corajoso e destemido. O velho, porém, não tinha o mesmo orgulho de sua própria maneira de ser. Considerava-se um fraco, manso demais. Era o estigma de um erro do passado que o tempo não parecia ser capaz de curar.
— Interessante — observou Zairom, que estava evidentemente intrigado, mas não aparentava qualquer medo. — Você é corajoso, Sironiel. Mas, também, é muito... digamos, emotivo. Você pensa que pode conquistar o mundo pela força do ódio, ou pela sede de justiça, se quiser rotular sua raiva assim. Mas saiba que seus poderosos sentimentos obscurecem a razão e impedem que veja muitas coisas. Se eu agisse como você, tudo já estaria perdido há muito tempo.
— Você fala demais, senhor de escravos — disse o rapaz desembainhando a espada.
— Ah, mas então um condenado não tem direito a suas últimas palavras? Do que tem medo, rapaz? Não posso feri-lo com palavras. Tudo que quero é fazer-lhe uma pergunta.
— Tem razão. Fale se quiser... aproveite seus últimos momentos.
— Pois bem — disse o senhor dos filhos do fogo, completamente calmo. — Como dizia, se eu agisse como você, já teria perdido a posição que ora ocupo e, portanto, o poder de ajudar na transformação desse Império. Por exemplo, se eu tivesse libertado os escravos, como, aliás, é o meu desejo, o que acha que aconteceria?
— Você ficaria sem o trabalho deles, miserável!
— Você é fúria sem razão. Não vê que isso significaria uma intervenção das legiões imperiais? Não percebe nem isso, Sironiel? Ou você desconhece que a escravidão é o pilar básico desse Império? Voltar-se contra ela é atrair a ira de todos os poderosos. Por acaso você discorda? Diga-me, Sironiel, o que faria se estivesse no meu lugar? Você atrairia a fúria de todos em razão de sua sede de justiça? Então, seria derrotado... Diga-me o que faria, essa é a pergunta que desejo fazer. Seja sincero!
— Eu... eu não sei. Mas...
— Essa situação não é culpa de mestre Zairom, Sironiel. Você não pode culpá-lo por isso! — comentou Jonorat. O rapaz parecia em dúvida.
— Eu não me importo com seus argumentos, Zairom! Eu não me importo! Esses anos todos de humilhação... Não posso esquecê-los. Eu tenho sede... sede!
— Sede de sangue? — indagou o filho do fogo, com o olhar penetrante.
— Como pode permanecer tão calmo quando está próximo de ser assassinado?
— Não pode! — subitamente Jonalat gritou, saindo do veículo. — Acho que nem ele pode. Finalmente, eu entendi. Não tem outra explicação.
— Jonalat, você está aqui? — espantou-se o jovem escravo.
Zairom ficou surpreso, ante o comentário do menino.
— Não entendi, Jonalat. O que quer dizer?
O menino enrubesceu, pois atraíra a atenção de todos.
— Fale, Jonalat! — insistiu Sironiel.
— Acho que nem o mestre Zairom poderia ficar tão tranqüilo se sua vida estivesse em risco... Então, acredito que ela não está em risco! O senhor, com todo respeito, mestre, é muito esperto, já percebi isso pelas coisas que meu avô me fala. O senhor é esperto demais para não ter medo da morte, muito esperto para andar sem escolta...
— Parabéns, Jonalat! — disse Zairom, impressionado. — Que excelente raciocínio! Então, Sironiel, você concorda ou discorda com o que o neto do seu tio disse? Estou esperando sua resposta!
O rapaz suava. Havia certa dúvida em seu semblante e no semblante de seus companheiros. Aproximou a espada do pescoço de Zairom, que permanecia impassível. As mãos do rapaz tremiam.
— Eu acho.... eu acho...
— Sim?
— Eu acho que ele está certo.
— É verdade? Então, o que pretende fazer? Sugiro que você e seus companheiros voltem para as minas. Não serão castigados. Mas se quiser fugir para o Deserto de Pedra... bem a escolha é de vocês. Serão, é claro, caçados pelos comerciantes de Lor-Zainan. Você sabe que é assim. Não terão mais minha proteção.
Sironiel permanecia em silêncio. Estava, obviamente, angustiado. Talvez sua vontade fosse a de chorar como uma criança.
— Eu vou voltar — disse ele finalmente. Proferir aquelas palavras era muito doloroso para o rapaz. Significava admitir a completa derrota. Jamais esperou que seus planos tivessem esse resultado tão peculiar.
— Acredito que você tomou a decisão certa.
— Mestre Zairom, cuidado! — exclamou o cocheiro Jonorat quando um dos comparsas de Sironiel, obviamente inconformado com aquele estranho desfecho, resolveu investir ele mesmo contra o filho do fogo. Seu golpe, porém, não chegaria a ser executado pois um dos outros escravos o impediu com tamanha facilidade que seria até difícil descrever seu movimento. Pode-se dizer que tomou a espada do atacante pela própria lâmina, mas sem se ferir! Depois, colocou-se entre o filho do fogo e os demais escravos numa rapidez sobre-humana. Retirou, então, o capuz, e todos viram que se tratava de um velho de barbas brancas e olhar distante, frio, esbranquiçado. Na verdade, não pertencia ao grupo de escravos e estivera ali até aquele momento sem ser notado. Antes que percebessem inteiramente do que se tratava, antes que pudessem se recuperar da surpresa, todos foram impelidos para trás, como se uma rajada de vento os arremessasse. Mas não havia brisa sequer.
— Viu Sironiel? Você não estava enganado. Eis aí minha escolta. Caros senhores, conheçam o mestre das sombras Zoltari de Nemaelos. Têm certeza que desejam enfrentá-lo? Eu sinceramente não recomendaria. Afinal, ele é um dos magos mais poderosos dessa ilha, além, é claro, de ser um bom amigo meu.
— O senhor tinha tudo sob controle o tempo todo! — espantou-se Jonorat.
— Oh, sim! Não teria chegado aonde cheguei se caísse em armadilhas tão banais quanto essa. Esse era, aliás, o assunto por que saí de casa hoje. Para cair nessa armadilha...
O filho do fogo não conseguiu evitar uma breve gargalhada. Sentia-se de muito bom humor.
— Então, era tudo um teste — observou Sironiel.
— Certamente! E você foi aprovado.
— Achei que o surpreenderia, mestre Zairom. Mas vejo que fui eu que me surpreendi.
— É verdade... Agora se me dão licença, cavalheiros, tenho outras questões a resolver.
Acompanhado por Zoltari e Jonalat, Zairom entrou na carruagem que partiu em disparada de volta à residência da família.
— Você está de parabéns, Jonalat — comentou o filho do fogo. — A maioria dos adultos teria dificuldade de compreender o que você conseguiu perceber tão rapidamente!
— Obrigado, senhor — agradeceu o menino muito envergonhado.
— Seu primo também foi bem. Ele mostrou capacidade de liderança, coragem e um ímpeto invejável de buscar aquilo que deseja. Entretanto, os sentimentos ainda detêm um controle exagerado sobre os atos dele. Mesmo isso, contudo, pode ser remediado... Na hora crucial, ele mostrou ser capaz de tomar a decisão correta, o que mostra quão promissor ele é. Não acha, mestre Zoltari?
— Acho sim. Mas espero que não me tenha chamado aqui para participar dessas brincadeiras, Zairom. Seu pai nunca cometeria uma impertinência dessas.
O teor ríspido de suas palavras era atenuado por um tom condescendente.
— Também não cometi, velho amigo. Apenas achei que se divertiria participando desse pequeno jogo...
— E eu me diverti — disse o velho, soltando uma breve gargalhada. — Mas agora, aos negócios, certo?
— Certamente. Veja essa carta.
— Ah, agora começo a entender sua preocupação... Tem alguma idéia do que se trata?
— Se eu tivesse, não teria mandado chamá-lo. É claro que estou tomando outras providências também...
— É claro... Mas, de todo modo, você fez bem em requisitar minha assistência. Isso pode não ser nada mas, também, pode ser algo realmente sério...
— Tenho algumas conjecturas, algumas suspeitas um pouco vagas. Deixei-as por escrito aí na mensagem.
— Sim. Estou vendo. Mas não se apresse em suas conclusões. Tudo depende do que ele está tramando. Veremos...
Depois de se despedir do mestre das sombras, que seguiu com Jonorat para a Vila do Fogo, Zairom foi ver como estava sua mulher. Ela, como era de se esperar, encontrava-se prostrada na cama, mas, dentro do possível, estava até de bom humor. Por isso, comentou:
— Meu querido, já de volta? Não se esqueça que agora temos mais um filho e você precisa trabalhar para sustentar a nós todos.
Zairom sequer sorriu.
— Bem, admito que foi uma piada sem graça. Está certo, não foi sequer uma piada, mas você podia ter rido, nem que fosse só para ser gentil...
— Desculpe, Liana.
— Você parece preocupado, Zairom. O que foi?
— Não é nada sério...
— É claro que é! Do contrário, não estaria preocupado desse jeito. Somos casados há quase três anos. Aprendi a conhecer você, pelo menos um pouco. É alguma revolta de escravos, é isso?
— Não. Não tem acontecido nada sério ultimamente e arrisco-me a dizer que não vai acontecer nenhuma rebelião importante no futuro previsível.
— Então o que é?
— Por favor, não fique ansiosa. Só não quero preocupá-la, é apenas isso. Ainda mais no seu estado...
— Eu sei. Mas você deve entender que fico ainda mais preocupada quando não sei o que o está afligindo.
— É o seu irmão. Recebi outra carta. Ele insiste para que eu vá à capital o quanto antes. Diz que está ansioso para conhecer o sobrinho...
— Ah, ele continua com essa história? Agora entendo sua preocupação, Zairom. É óbvio que nosso Imperador não é dado a essas frivolidades. Nós dois o conhecemos o suficiente para afirmarmos isso. Ele está tramando alguma coisa com certeza!
— Também cheguei a mesma conclusão. Mas o quê?
— É difícil saber. E o pior é que não posso ajudá-lo, já que minhas relações com ele não tem sido as melhores, para dizer o mínimo, especialmente depois que decidi casar com você.
— É verdade. Mas não pretendo atender ao chamado do Imperador, pelo menos vou adiar essa viagem ao máximo
— Você faz bem. Não se preocupe, Zairom... Sei que vai descobrir os planos dele a tempo.
— Espero que sim, minha querida. Espero que sim...
Liana Norgat Guenor sentiu um aperto no peito, um certo temor, quando emergiu diante dela a imagem de seu irmão, nascida de tristes e soturnas memórias
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