O Livro de Iazmein

Sinopse:

O quarto livro da série apresenta a história de Iazmein, filha do fundador da Quinta Dinastia, Fairon Norgat. Ainda menina, Iazmein viaja com Laios Silai através da Península Oreânica e acaba por testemunhar as primeiras batalhas da Guerra das Sombras. Anos depois, ao acompanhar Laicar Oroin em uma jornada decisiva, verá também o fim desse grande conflito e compreederá o seu próprio papel na definição do destino de homens e deuses. Possivelmente, o mais impactante dos quatro volumes.

Prólogo:

Agora, caros leitores, vocês já devem conhecer boa parte da minha história, a história de Laiossarionin Silai. Sabem, pelo menos, eu espero, sobre o artefato (o olho de Crion), minha união com ele e a separação que se seguiu. Sabem também por que eu deixei a Terra das Sombras, conhecem o objetivo sinistro que me animava então, o desejo de me apossar do poder dos imortais, de recriar a ligação. Se eu consegui transmitir esses dois fatos, minha missão está suficientemente cumprida. Mas não foi simples tal tarefa. Sofri intensamente em certos momentos, e o preço que paguei foi considerável... Pergunto-me agora (como me perguntava antes) se a chave valeu o sacrifício. O que acham, leitores? Talvez ainda seja cedo para vocês optarem, afinal não conhecem as circunstâncias na qual perdi a escultura nem sabem o uso que aprendi a fazer dela... Se soubessem, talvez percebessem que há algumas possibilidades que merecem ser estudadas. Antes, porém, devo recuperar as forças, pois se trata de tarefa das mais delicadas.
Como eu acreditava, a Reverenda Madre Amoel Gliam foi extremamente detalhista na revisão do texto. Fez anotações muito insolentes, criticando meu estilo, dizendo que escrevo de forma confusa e que não obedeço claramente a uma ordem cronológica... A bruxa não entende nada sobre minha história! Por que ela não consegue compreender que o pulsar de minha consciência é muito mais adequado do que o correr do tempo para descrever o que vivi? Afinal, como ela quer que eu explique cronologicamente minha experiência com o olho que não distingue passado, presente e futuro? É impossível. Terminantemente impossível! Felizmente, posso simplesmente ignorar a maioria de suas críticas. Descobri que ela tem pouco poder a esse respeito. Hesita em revisar o texto sem a minha permissão. Por certo, Eioa deve ter limitado seus poderes nesse ponto, deve ter estabelecido que o texto pertencia a mim e só a mim... Quanto a isso, tenho apenas conjecturas.
Para o deleite da Reverenda Madre (e de muitos leitores também), a partir de agora a pena está em outras mãos. Isso já havia sido planejado. A chegada de Iazmein durante minha recente crise não fora mera coincidência. Caberá a filha de Fairon Norgat escrever o último dos quatro livros que narra desde nossa saída da Ilha Zainíquia até o final do grande conflito que se convencionou chamar de “A Guerra das Sombras”. É uma história terrível, sem dúvida, já que aqueles anos foram cheios de luta e destruição. Tenho poucas dúvidas de que muito sobre o futuro dos reinos de Oguera foi definido naquele tempo e de forma irreversível!
Na história que Iazmein deverá narrar, encontra-se meu sucesso e meu fracasso, embora esse não seja o tema principal. Ganha espaço o legado dos dois Imperadores e do segundo alorain. Trata-se da queda do velho mundo e do início dessa Nova Era tão peculiar em que vivemos. Mas, como dito, não cabe a mim narrar esses eventos. Minha antiga aluna fará o trabalho muito melhor do que eu. Ainda mais que o outono já está na metade e logo o inverno presenteará Iazmein com um clima mais ameno para escrever — luxo do qual não pude dispor. Quanto a mim, tenho outros afazeres. Com a chave em meu poder, posso libertar-me do limbo em que me encontro e, finalmente, definir minha existência, de um jeito ou de outro. Veremos...

Capítulo 1: Jornada incompleta

Taiar e Iaz. O taiar é a chama eterna, símbolo supremo de Naquicar. Além de sua forma incandescente, a essência do taiar é o sentimento que dele emana, reminiscência do espírito de Larcon. A chama é, pois, como os seres viventes, cuja existência está atrelada à combinação de forma e espírito. Se imaginarmos, contudo, o taiar despido desses dois elementos, poderemos compreender uma realidade ainda mais essencial, mais perfeita. Trata-se do já se chamou de chama transcendental ou “Iaz”, a suprema iluminação. Ao transcender a forma, o taiar torna-se pura luz, a própria personificação da verdade. Ao transcender o espírito, a chama liberta-se da corrente da vontade, transmutando-se em poder purificado e pleno, de onde tudo nasce e para onde tudo converge. E muitos são os caminhos (“Main” ou “Mein”) que levam a“Iaz”. Segundo a crença dos antigos, eles foram forjados pelos Senhores do Destino nos primórdios do Universo para propiciar às criaturas a libertação da forma e do espírito. Cada estrada é uma derivação de Iaz, cada caminho, uma verdade ainda incompleta que dissipa, gradualmente, a ilusão. (...) A vida, conjunção de muitos caminhos, é, em sua essência, uma jornada inconclusa rumo à chama transcendental. (Escaelos - Teologias)

Deixei que mestre Laios escrevesse o prólogo desse livro e também permitirei que a Reverenda Madre Amoel Gliam traga suas contribuições ao texto, muitas vezes sob a forma de epígrafes e comentários. Não me furtarei, aliás, a trazer subsídios dos dois e de outros também sempre que for necessário. A razão disso é uma só: sou humilde o suficiente para reconhecer que as contribuições deles são indispensáveis. Observem que o primeiro dos quatro livros foi narrado por um deus — inconstante e turbulento, quase humano em suas faltas, como Dinaer —, mas ainda assim um deus. Isso conferiu ao narrador um poder impressionante. Ele vislumbrava muitas coisas, destruía todas as limitações do tempo e do espaço, e, quando necessário, penetrava no próprio espírito dos personagens, revelando seus pensamentos, sentimentos e os mais obscuros sonhos e pesadelos. Terminei de ler o segundo livro faz poucos dias. É interessante constatar que Ariela Delonien via quase tanto quanto um imortal, porque ou os próprios deuses mostravam tudo a ela, ou, bem, Rairom o fazia. Quanto a mestre Laios, não preciso nem fazer comentários. Ele, por certo tempo, esteve próximo das divindades e alguns aspectos do que viu nem mesmo os deuses ousam tentar vislumbrar. Diga-se de passagem que, apesar das críticas da Reverenda Madre e de seu estilo exageradamente pomposo, acho que ele fez um bom trabalho. Não é simples expressar em palavras os significados que, surpreendentemente, conseguiu traduzir. Quanto a mim, posso garantir que sou apenas humana. Isso quer dizer que não vi muitas coisas porque não podia ver e porque, ao contrário da Rainha de Delon, os deuses ou seus enviados não me mostraram nada (ou quase nada). Mas ainda assim, acho que posso fazer um bom trabalho — ou seja, um trabalho razoavelmente fidedigno aos fatos — porque conto com a ajuda de muitos, que partilharam comigo suas experiências e sua sabedoria.
Não tenho a mania de mestre Laios de conversar com o leitor. Acho esse hábito, aliás, bastante inconveniente já que fazemos uma pergunta cuja resposta jamais saberemos (pois nosso interlocutor não está presente). Entretanto, abro pequena exceção para indagar-lhes o que sabem sobre mim. Suponho que conheçam meu nome — Iazmein de Fanor e Norgat — e algo sobre meu passado. Tudo o que mestre Laios disse a meu respeito é verdade. Sou filha de Fairon Norgat, o Imperador destronado por seu sobrinho, Tairom, o filho do fogo. Noite traumática aquela descrita no livro que meu mestre escreveu. Falo do dia em que ele me amparou, me protegeu da fúria assassina do filho do fogo. Somente por isso fui poupada de pagar pelos crimes de meu pai. Não pretendo defender Fairon Norgat. Ele cometeu muitos erros, destruiu muitas vidas. Contudo, não pretendo tampouco condená-lo. Se dependesse de mim, meu pai seria perdoado. Dele guardo apenas memórias singelas, de um amor e dedicação sem limites. Não sei, porém, até que ponto minhas memórias misturam-se com as fantasias infantis, criando belas — e inverídicas — idealizações. Tenho poucas dúvidas, no entanto, de que Fairon Norgat sempre foi um homem bom, pelo menos, no que diz respeito a mim e a minha mãe. Todos os seus esforços — por mais criminosos que fossem — tinham um único objetivo: defender meu futuro e o dela. Por outro lado, devo admitir que entendo seus algozes. O desejo revanchista que os animava era justificável, embora seus métodos fossem exageradamente cruéis — o que os tornava muito semelhantes a meu pai. Sim, Tairom Guenor era tão cruel e ambicioso quanto Fairon Norgat. Até hoje não sei ao certo o que o Deus da Chama Eterna ganhou substituindo um pelo outro... com toda certeza, ele tinha seus motivos.
Mas acho que já falei o suficiente sobre mim. Vocês conhecerão meu temperamento e minhas opiniões conforme for narrando a história que se segue. E essa história — como mestre Laios já adiantou — inicia-se quando deixamos a Terra das Sombras, em busca dos dois oreanos, mais especificamente de Laicar Oroin. Como sabem, meu mestre desejava o poder dos imortais, que o alorain portava. Ele acreditava (um pouco ingenuamente, é verdade) que poderia controlar esse poder, que poderia utilizá-lo para manobrar uma certa chave, restabelecendo a ligação com o olho de Crion. Como era otimista meu querido benfeitor! Eu fui testemunha de seus esforços durante os anos em que estive sob sua proteção na Terra do Vento. O pobre Laios sofria intensamente. A ferida que a pedra criara era grande demais. Pelo que ele mesmo me contava, seus pensamentos não eram mais completos sem a pedra. Buscava lembranças que não mais possuía, compreensões das quais restavam apenas fragmentos e intuições. E isso acontecia todo o tempo, a cada memória evocada, a cada raciocínio! É surpreendente que não tenha enlouquecido face a semelhante tortura. Mas ele lutou bravamente durante anos inteiros, exatamente como havia enfrentado o filho do fogo na noite em que me salvou. Como era corajoso mestre Laios e como era persistente! Pode-se atribuir a ele toda sorte de defeitos (e ele certamente os possui), mas deve-se reconhecer que tinha, pelo menos, essas duas qualidades no mais alto grau! E como exigir dele, nesse estado, um comportamento perfeitamente racional? Como obrigá-lo a sopesar adequadamente as variáveis se seu pensamento era sempre, em parte, obscurecido por esse nefasto processo? Era compreensível, portanto, que ficasse exageradamente feliz quando finalmente descobrimos a identidade do alorain, já que passou a vislumbrar o fim de seu tormento. Achava realmente que seria fácil capturá-lo e que seria ainda mais simples apossar-se do seu poder. Mesmo naquela época, eu considerava que seu otimismo era exagerado (e eu tinha só dez anos!). Mas ficava feliz de vê-lo quase saudável. Parcialmente liberto da angústia, tornava-se mais poderoso, mais senhor de si. Quase não enjoou durante a viagem até Cilion e mestre Laios sempre enjoa em viagens marítimas.
Quando, no dia aticral-2, 1668 (ou 1971p.e.), vislumbramos, na ilha pedregosa, a decadente cidade-fortaleza de Cilion, outrora sede de um grande império, vi, no rosto de mestre Laios, uma ansiedade intensa combinada com uma doce certeza de que tudo logo se resolveria. Temi, então, que, se as certezas se desfizessem, só restaria a ansiedade e sua frágil paz de espírito desapareceria. E foi exatamente isso que aconteceu. Qual foi nossa surpresa quando descobrimos que os oreanos não estavam em Cilion. Eles haviam partido no mesmo dia para o continente, mais precisamente para a cidade de Zalcaris, onde deveriam desempenhar uma missão para o Larcon. Mestre Laios procurou considerar esse fato como um mero contratempo, embora seu estado de espírito já tivesse se deteriorado um pouco. Não podia ser de outra forma. As ilusões que ingenuamente vinha alimentando já haviam sido seriamente abaladas.
Hospedamo-nos na casa de um tio do mestre. Chamava-se Menator de Zan. Esse tio, que sempre fora profundamente ligado aos interesses dos Zangalast — e, portanto, durante a guerra civil, à facção do norte — havia ajudado (e muito!) na “purificação” da casa de Zan após a ascensão de Tairom Guenor. Em outras palavras, ajudou a expurgar certos elementos que haviam participado da conspiração contra os Silai. Era um indivíduo muito ladino, capaz de sentir o “fluir das marés”, como ele mesmo afirmava, ou seja, escolher o lado vitorioso e, assim, garantir que o prestígio e o poder dos Zan não fosse abalado. Não era um caso único nessa linhagem muito antiga, que nunca teve pudores de manter sua posição social por meio de torpes estratagemas.
Pois bem, a razão que nos levou a procurá-lo era bastante evidente. Meu mestre queria sua ajuda na questão da localização dos oreanos. Não desejava envolver diretamente o Imperador ou Lisian, pois isso implicaria ter de responder muitas perguntas inconvenientes. Felizmente, Menator de Zan era a pessoa certa para o serviço, de sorte que, após dois sextos de nossa chegada, recebemos uma mensagem dos serviçais do tio de Laios em Zalcaris, comunicando a captura dos oreanos. Isso mesmo! Foi simples assim. Afinal, tínhamos a surpresa do nosso lado e os lacaios de Menator não eram nada tolos. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que recebemos a maravilhosa carta. As ilusões de mestre Laios novamente tornaram-se fortes e ele ficou feliz como uma criança que ganha um belo presente. Estava até mais feliz do que da primeira vez, mas não tive prazer em vê-lo assim, já que a serenidade que estivera presente antes de chegarmos a Cilion não retornara. A alegria dele era pura excitação, como um bêbado, como um tolo, ou, pior, como um louco. Sim, havia traços de loucura em sua alegria e talvez por isso ela me lembrasse muito os momentos de tristeza que ele mesmo experimentava com maior freqüência. No caso de meu mestre, eram muito próximos os dois estados, o que me deixava intrigada e preocupada. Recordo-me que, ao vê-lo no jardim exultante, abraçando o velho Menator (que não compreendia o porquê de tanta euforia) veio-me à mente uma outra cena, bastante diversa por sinal, que havia presenciado um ano antes.
Nessa cena, estava uma moça chamada Aenilis, que, por muito tempo, fora amiga de meu mestre. Na verdade, não é exagero dizer que os dois amavam-se como dois irmãos ou talvez até mais — mas confesso que a esse respeito não sei tanto quanto gostaria, apesar dos subsídios que a leitura do livro de mestre Laios me deu. Curiosamente, porém, nos anos em que estive sob sua proteção, meu mestre passou a não mais apreciar a companhia de Aenilis, a tratá-la com certa frieza e, às vezes, até com descortesia. Não aceitou sequer que participasse da recriada Escola do Vento, apesar das habilidades dela serem consideráveis. Isso me espantava, já que eu, particularmente, gostava muito da moça e percebia todo o apreço com que ela tratava meu mestre.
Pois bem, na cena que pretendo descrever, estava Aenilis sentada na relva esverdeada dos jardins da Academia muito perturbada. O motivo era um só: mestre Laios havia se recusado a recebê-la, dando um pretexto qualquer. E ela viera desde a Terra da Água para visitá-lo! Aquilo devia ser realmente muito frustrante. Quando me aproximei, ela ensaiou um sorriso amarelado. Aquilo era até um pouco cômico... Tive vontade de rir, mas, por outro lado, sentia pena e, por isso, fiquei só na vontade. Dei-lhe um beijo na testa como sinal de simpatia.
Ela riu satisfeita.
— Ah, minha querida, vejo que finalmente conquistei sua amizade. Consegui?
— Conseguiu. Entendi que gosta muito do meu mestre. Quero ser sua amiga, Aenilis.
— Muito obrigada — disse a moça. Pelo visto, meu singelo gesto havia conseguido alegrá-la. — Você está muito bem, minha criança. Está até mais comunicativa!
— É verdade que antes falava menos... naquele tempo, quando meu mestre me salvou. Mas até hoje não gosto de falar com qualquer pessoa. Só converso com quem eu gosto.
Pelo visto, ela ficou emocionada por eu lhe dar a distinta honra de conversar comigo, já que me pegou no colo e encheu de beijos minhas bochechas rosadas.
— Você é um anjo, Iazmein. Já não estou mais triste. Viu?
Sorri.
— E como ele está? — perguntou Aenilis, assumindo uma expressão séria.
— Continua igual. Ele sofre muito, eu acho.
— Eu sei.
Ela estremeceu. Alguma lembrança terrível deve ter passado por sua mente.
— E o pior, Iazmein, é que ele nem me deixa ajudá-lo. Aquele cabeça-dura é um caso perdido! Não vale a pena insistir mais.
— Você se preocupa muito com ele. Aenilis, você é como eu e isso não vai mudar.
— Eu acho... que você está certa. Talvez continue me preocupando com ele, por mais que isso seja inútil... Mas logo vou embora e então... Foi justamente por isso que vim conversar com Laios, sabia? Decidi partir para completar a obra de meus pais.
— O mestre já espera por isso. Ele comentou comigo que, mais cedo ou mais tarde, você deveria partir. Parece que ele deseja que você parta o quanto antes para realizar seu velho sonho.
— É verdade? Eu sei por que ele pensa assim. Ele quer me proteger! Aquele grande idiota pensa que pode ser o juiz de minha vida, da minha felicidade...
Ela assumiu uma expressão sombria ao pronunciar essas palavras. Havia nelas certo rancor. Eu fiz uma cara de interrogação.
— Não entendi nada, Aenilis.
— Iazmein, Laios está trilhando um caminho terrível e ele sabe disso. Nesse caminho nefasto, mesmo a alegria vai se tornar, no devido tempo, uma forma de tristeza, uma sutil derivação de sua dor onipresente. E, quando mesmo a satisfação mais singela for um tormento disfarçado, ele estará prestes a enlouquecer por completo. Sinto em meu coração que será assim. Se ao menos ele mudasse de atitude... mas ele não mudará. Nem eu nem você podemos fazer nada a esse respeito. Nada! Ele nos salvou, mas nós não temos como salvá-lo, minha querida. Isso é muito frustrante.
Ao observar a estranha alegria de mestre Laios naquele dia em Cilion, as palavras de Aenilis surgiram fortes em minha mente. Suas previsões pareciam estar corretas. Aquela alegria que demonstrava não era natural. Havia nela um traço de sua tristeza e de sua loucura. E o pior é que ele mesmo sabia disso! Pois eu lhe contara sobre a conversa com a Aenilis naquela época e ele sabia que sua velha amiga estava certa e que era preciso manter o equilíbrio a todo custo. Devia evitar a tristeza e a alegria. Em verdade, não poderia dar-se ao luxo de se deixar arrebatar por qualquer sentimento. Por isso, aproximei-me dele e olhei-o com censura. Ele percebeu minha mensagem e procurou se controlar.
— Obrigado por ter-me avisado, Iazmein — ele disse depois. — Às vezes, nem eu percebo o que faço. Mas acho que, em breve, essa luta terminará — afirmou, sua voz imbuída de evidente ansiedade.
— Pode ser. Mas é preciso estar preparado para continuar lutando, no caso de tudo que o senhor planejou dar errado nesse momento.
— Você está certa, minha querida. Manterei o equilíbrio a todo custo. Vamos praticar sua lição? — sugeriu o mestre. De fato, quase todos os dias, ele me instruía em algum aspecto das artes místicas. Eu não era nenhum prodígio, mas já conseguia executar encantos simples: levitação de objetos, acender velas e coisas do gênero. Apreciava mais a leitura de livros sobre ciência natural, história e teologia. Tenho orgulho em dizer que, com a idade de dez anos, já conseguia ler em cinco idiomas e era capaz de me comunicar fluentemente na língua peninsular. Falava até quase sem sotaque algum, o que espantou a muitos adultos em Cilion.
Aliás, foi durante um certo jantar em homenagem a Imperatriz na casa de Menator de Zan (precisamente um dia antes de recebermos uma notícia bastante desagradável) que tive a oportunidade de demonstrar toda a habilidade que possuía na língua de Oréu para muitos dos nobres locais. Basicamente, eles me faziam toda sorte de perguntas sobre a Terra das Sombras e eu lhes respondia com meu oreano primoroso — que era muito melhor que o de mestre Laios e o da Imperatriz, cujo sotaque estrangeiro era evidente. Acho que despertava a curiosidade dessas pessoas por ser quem era — a filha do Imperador deposto. Não sei dizer. O fato é que me davam muita atenção, o que me irritava. Mas mestre Laios fazia questão de mostrar-me. Meu querido benfeitor, ao que parecia, tinha muito orgulho de mim. Para agradá-lo, agüentava aqueles nobres e procurava tratá-los bem. Sempre buscava, porém, um pretexto para me retirar. Naquela noite, esse pretexto logo surgiu: foi a chegada inesperada do Imperador, que, em tese, em função de certos compromissos, não deveria comparecer ao jantar.
Ao ser anunciada a presença do Larcon, o mestre pediu para que eu me retirasse, com o que assenti alegremente. Para minha surpresa, porém, Tairom Guenor insistiu com Laios para que eu ficasse e terminasse de jantar. Disse que não se sentia nem um pouco incomodado com a minha presença e que não fazia sentido que eu me retirasse por sua causa. Por certo, queria impressionar os nobres cilianos com sua “magnanimidade”. Mas eu e todos naquela sala sabíamos que ele era tudo menos magnânimo. Meu mestre, porém, não ficou calado. Nem agiu como um cortesão. Sua resposta, ao contrário, foi quase um desafio:
— Mas será que ela, Imperador, não se incomoda com sua presença? Foi, por isso, aliás, que pedi que se retirasse, para que não precisasse estar com o senhor.
Disse essa frase em tom claramente audível de modo que todos os bajuladores que estavam na sala sentiram-se incomodados. A própria Imperatriz foi surpreendida, mas não parecia reprovar a atitude de seu irmão.
— Não havia pensado nisso, meu querido amigo — respondeu o Larcon prontamente e sem demonstrar irritação. — Talvez ela tenha medo de mim e não posso culpá-la... Por que não deixamos que ela mesma decida se quer ficar?
Tairom Guenor, obviamente, devolvera a provocação. Meu mestre ficou confuso. Iria responder alguma coisa, mas eu mesmo intervim, já que fora a mim que ele provocara.
— Ao contrário, não tenho medo algum, Imperador — respondi em alto e bom som. — Se fosse tão medrosa, não seria filha de meu pai. Portanto, posso ficar, embora...
— Então, está resolvido. A menina fica — interrompeu a Imperatriz, evidentemente querendo evitar que nossa conversa se deteriorasse em um pouco elegante e imprevisível bate-boca. — Meu querido, sente-se aqui a meu lado — sugeriu ela ao Imperador.
Mestre Laios olhou em minha direção e sorriu. Estava evidentemente satisfeito com minha atitude. É como disse antes: ele pode possuir todos os defeitos, mas não é bajulador ou covarde. Não se curvaria diante das provocações do Larcon e ficou feliz que segui seu exemplo. Outro que ficava me observando durante o jantar era o Imperador Tairom Guenor (ou, como os bajuladores o chamavam, Naquiron Ilonei). Aquilo ele fazia para que me mostrasse amedrontada diante dos convidados, concluí. Mas não permiti que ele fosse bem sucedido. Suportei tal tortura sem me intimidar até que o jantar terminou e eu me retirei da sala. Fui até a sacada, de onde era possível observar a grande cidade-fortaleza e o mar. Agradava-me aquela visão iluminada pela lua, como também me apraziam as noites do inverno peninsular, de temperatura tão amena, como na Ilha Zainíquia vê-se apenas nos verões. Passado certo tempo, senti-me entediada e resolvi ir para o quarto. Eis, porém, que, na porta que dava acesso à sala, deparo-me com o Imperador. Levei um enorme susto que não consegui esconder.
— Não tenha medo, minha prima — disse Tairom. — Não pretendia assustá-la, nem humilhá-la, como deve estar pensando... Nem quero lhe fazer qualquer mal. Mas, ao que parece, seu mestre está certo, você não deve suportar minha presença, não é?
Recobrada do susto, fiz menção de me retirar, mas ele bloqueava a única saída e não parecia que me deixaria passar.
— Bem, acho que não posso recriminá-la por isso. Mas, por favor, espere um momento. Há muito tempo, quero encontrá-la. Mesmo sem conhecê-la, gosto de você, Iazmein. Em outras circunstâncias poderíamos ter sido amigos, afinal somos parentes... Já pensou se a guerra civil nunca tivesse acontecido? Seríamos uma família! Eu, você, seu pai e o meu, nossas mães, meu irmão, seríamos todos felizes, pois a felicidade está nas coisas simples. Você poderia nos visitar, a seus primos, no verão e eu e Rairom levaríamos você para conhecer tantos lugares interessantes... Havia uma cachoeira, sabe? Uma torre de onde se podia ver o pôr-do-sol no mar... Ah, Iazmein, como a vida poderia ter sido diferente! Às vezes, não entendo o porquê de tanto ódio. De onde surgiu tanta morte e destruição?
Acreditam que o Larcon tinha lágrimas nos olhos ao proferir esse cínico discurso? Estava disposta a ignorar seus comentários, mas aquilo já era demais!
— Ora, de onde surgiu tanto ódio? Do seu coração e do coração de meu pai. De onde surgiu tanta destruição? Vocês dois a causaram. É tão simples!
— Não, as coisas são mais complicadas... Mas, por outro lado, talvez haja alguma verdade em suas palavras. Do contrário, por que sentiria tanta culpa? Eu tenho tido pesadelos, Iazmein. E, nesses pesadelos, as duas noites fatídicas que vivi naquela maldita casa se misturam. De todos os fatos, o que mais me incomoda é eu ter tentado matá-la. Por que ataquei uma criança indefesa? “Por quê?”, já me perguntei infinitas vezes, mas não encontro resposta. Sinto-me culpado em relação a você... Mesmo não tendo conseguido feri-la fisicamente, acho que lhe causei um grande mal, uma dor tão intensa, uma ferida tão profunda quanto a que eu sofri por causa de seu pai. Pelo menos, você era muito jovem. Talvez suas impressões não tenham sido tão fortes quanto as que eu experimentei quando vi meus pais morrerem. Talvez você nem se lembre direito daquele momento, mas...
— Eu me lembro de tudo. Como poderia esquecer? — disse com firmeza. O Larcon espantou-se.
— De tudo? Será que lhe tornei igual a mim? Tem pesadelos como eu?
— Não.
— Não acredito! Você me odeia, não é? Pode ser sincera. Deve me odiar tanto quanto eu odiava seu pai!
— Não sinto nada.
— Você mente. Por acaso, não amava seu pai?
— Amava muito.
— Então deve me odiar pelo que fiz. Qualquer pessoa odiaria o assassino do próprio pai! É um ódio terrível, não é? Eu sei exatamente como se sente. Você não é sincera, porque tem medo de mim... Você é como eu! Quer se vingar. Espera apenas o momento certo para se vingar!
— Se é o que acredita... — disse. E em meus lábios desenhou-se um belo sorriso. Eu era muito transparente então, como são, em geral, as crianças. Por isso, o Larcon pôde perceber que eu realmente não o odiava. Talvez sentisse por ele algo diferente, que não era capaz de definir então e que mais tarde vim a designar como desprezo. Quando olhava para Tairom, via nele uma pessoa muito inferior a mim, um indivíduo que não era digno sequer de estar na minha presença. Naquele momento, só por falar com ele, uma grande satisfação invadia-me, por minha generosidade, por estar doando um pouco do meu precioso tempo àquela criatura patética e rancorosa, que, sem dúvida, não merecia nem um momento da minha atenção. O Imperador sentiu-se desnorteado. Via em seu rosto uma expressão de dúvida, como se ele se perguntasse se eu não era louca.
— Estou com sono. Quero ir para cama.
— Espere. Responda-me só uma pergunta. Se você se lembra de tudo, deve sonhar ou pelo menos recordar de vez em quando aquela noite, aquele momento em que tentei matá-la. Quando faz isso, o que sente?
— Quer mesmo saber? — disse, bocejando.
— Por favor!
— Sinto gratidão por mestre Laios. Vejo quando ele me salva do senhor e sinto uma paz tão grande, tão grande, como se nem o senhor, nem meu pai, nem o círculo de ódio que vocês dois criaram pudessem me atingir... E, quer saber? Não podem mesmo! Nunca me tornarei igual a vocês. Por mais que o senhor deseje isso, nunca gastarei um só instante da minha vida pensando no senhor, odiando o senhor. O que o faz acreditar que merece ocupar mesmo o lugar mais insignificante no meu pensamento ou no meu coração?
Olhei nesse instante com enorme desprezo para o Imperador, que parecia chocado com a minha resposta. Como ele nada dizia eu continuei:
— Sim, quando relembro aquele momento, o que eu sinto é amor e admiração e vontade de amar e proteger como nesse dia em que fui protegida. Nem por um instante penso no senhor. Nem por um instante!
O Imperador estava boquiaberto. Estava além da compreensão da torpe criatura que alguém pudesse retirar algo de positivo de uma experiência tão trágica. Aproveitei seu estado de surpresa para ir embora sem dar maiores explicações. Fora sincera com ele, mas não inteiramente sincera. Era verdade que sentia admiração pelo gesto do mestre e era verdade também que me sentia em paz e segura. Mas isso só depois de experimentar um medo terrível, ante a crueldade enlouquecida de Tairom e a iminência da morte. Só nesse sentido a memória tinha a ver com ele, mas não exatamente com ele, já que era a ameaça, no seu estado puro, a fonte do meu medo. E o medo que experimentava era tão intenso quanto a paz que depois se seguia. Foi por causa desse terror que desmaiei naquela noite fatídica e foi por causa dele que, por muito tempo, só me sentia segura ao lado de mestre Laios. Mas, com o passar dos anos, o terror foi perdendo força, embora a impressão positiva que o gesto do meu benfeitor criara permanecesse gravada indelevelmente em meu espírito.
No dia seguinte, veio a notícia desagradável que mencionei: os oreanos haviam fugido. Nunca chegamos a saber os detalhes de como conseguiram escapar dos vassalos de Menator. Ouvimos versões desconexas. Alguns diziam que eles haviam escapado num bote, outros que nem sequer teriam embarcado no barco que os levaria a Cilion. Falava-se em suborno. Os detalhes, porém, não tinham importância. Ao saber que seus planos haviam sido adiados e agora por um período indefinido mestre Laios ficou desesperado. A ansiedade dominou-o completamente. Ficou dois dias incomunicável, trancado em seus aposentos. Nem os meus apelos ele atendia. Quando finalmente consegui vê-lo, estava prostrado, os olhos arregalados. Suas ilusões haviam desaparecido. Percebera, finalmente, que não seria simples encontrar o alorain e apossar-se de seus poderes, que forças poderosas deveriam protegê-lo.
— Não tenho mais esperanças, Iazmein. Todos os meus sonhos eram apenas ilusão — ele disse.
— Talvez isso seja verdade — respondi. Ele pareceu moderadamente surpreso com o meu comentário. Possivelmente, esperava que eu o consolasse. — Pelos livros que li, o que senhor pretendia era praticamente impossível... Os aimain, os escolhidos do passado, eram caçados por exércitos inteiros e por muitos magos poderosos e, mesmo assim, era muito difícil achá-los. Mesmo quando era descoberta sua identidade, forças conspiravam para que eles sobrevivessem a todas as ameaças e escapassem quase sempre. Por que acreditava que seria diferente, com o senhor que está quase sozinho nessa busca? Mestre Laios, por quê?
— Não sei...
— Porque é um tolo! Porque escolhe não ver o que está diante do seu nariz. Não fique espantado! Só estou dizendo a verdade. Não vou ficar passando a mão na sua cabeça. O senhor está muito velho para isso. Se for para ficar choramingando toda vez que uma dificuldade surgir, é melhor desistir. É evidente que vai ser muito difícil capturar o alorain. Outras frustrações virão antes que consigamos encontrá-lo. Então, desista de uma vez ou pare de choramingar! E, sobretudo, chega de ilusões!
— Você tem razão! Por todos os deuses, você tem razão! — disse, depois de refletir por alguns momentos. — Eu me deixei iludir porque fui arrogante e porque permiti que a ansiedade obscurecesse meu raciocínio... Sim, são grandes as forças que preciso ludibriar, e talvez não tenha chance alguma de vitória. Mas esse é o último esforço que devo fazer para salvar minha vida e dele não posso fugir! O mais importante, como você disse, é não ter ilusões, ter plena consciência da minha real fragilidade face a tais poderes e lutar de peito aberto mesmo assim!
Vi que a ansiedade dele diminuiu bastante, porque conseguira que visse a realidade tal como era e compreendesse seu objetivo em sua real complexidade. Afinal, ele precisaria ludibriar os próprios deuses, se pretendesse se apossar (mesmo que por um pequeno instante) do poder do alorain. Tal feito era, obviamente, extremamente difícil de alcançar. Mas era pior não ver a dificuldade do que enxergá-la, já que, não a percebendo, acreditava estar próximo de um sucesso impossível no curto prazo. Por outro lado, conhecendo a magnitude do obstáculo, ou desistiria de uma vez ou juntaria forças para enfrentar uma longa e difícil batalha. Fiquei imensamente satisfeita ao perceber que meu mestre escolhia a segunda opção.
— É assim que se fala! — disse sorrindo.
— Iazmein, você já deve estar cansada de me aturar, não é verdade?
— Não diga isso, mestre! Por acaso, estou aqui obrigada? Eu serei eternamente grata e quero ajudá-lo sempre!
— Mas eu não tenho direito a essa ajuda. Eu já importunei demais seu pobre coraçãozinho. Você chorou ontem quando bateu na porta e eu me recusei a abri-la... e essa não foi a primeira vez que fiz você chorar. Eu a estou obrigando a partilhar um peso exagerado para qualquer um, quanto mais para uma criança! E mesmo assim quase não penso na sua situação. Não me preocupo com ninguém, só comigo! Sou um maldito egoísta.
— O senhor não é egoísta. Oh, mestre, esqueceu como me salvou? Se hoje estou viva, é graças ao senhor.
— Não mereço sua gratidão, Iazmein. Eu a salvei justamente porque sou egoísta, porque esperava me apossar do poder do artefato em um grau ainda mais elevado. Você foi um experimento, apenas um experimento. Um certo alguém me disse isso e acho que tinha razão...
— Isso é uma bobagem. Quem lhe disse uma coisa dessas é uma pessoa má que não consegue ver bondade em nada. — disse sorrindo. — Um dia vai perceber que senhor é mais nobre do que imagina. Não sou só eu que penso assim. Aenilis, Maorus, Raolus, Lisian e até o estúpido Larcon tem a mesma opinião! Só o senhor que não quer ver. Mas já cansei dessa conversa. Pedirei que tragam sua refeição. E, depois, descanse. Amanhã, pensaremos nos próximos passos...
— Querida, talvez fosse melhor que encontrássemos um lugar seguro para você ficar, um novo guardião, antes que eu inicie essa fase longa e difícil da minha jornada. Já falei com Maorus a esse respeito algum tempo atrás. Ele concordou em protegê-la...
O mestre já havia feito insinuações parecidas no passado. Tais sugestões irritavam-me imensamente. Fiz uma cara feia e exclamei:
— Nada disso! Escute bem o que vou lhe dizer. Meu pai está morto, minha mãe foi forçada a me abandonar! O senhor é a única família que me restou. É para mim como um segundo pai. Se me abandonar por vontade própria, nunca o perdoarei! Nunca! Está me ouvindo?
— Está bem. Não se altere tanto. Enquanto puder mantê-la comigo em segurança, não pretendo deixá-la. É só uma idéia para o caso de uma eventualidade...
— Pois esqueça essa idéia! — afirmei, com cara de birra. Mestre Laios achou engraçada minha atitude.
— Seu desejo é uma ordem, minha senhora... E, agora, desfaça essa carranca. Está bem?
Eu sorri.
— É assim que se faz! Mas não ouse jamais me chamar de papai de novo. Só tenho vinte e quatro anos. Sou muito jovem para ser pai de uma menina de dez.
— Nem tão jovem assim, mas tudo bem — disse rindo.
Ele não deixava de ter razão. Apesar disso, eu o via então e sempre depois como um pai, pois foi o papel de pai que ele desempenhou na minha vida. De certa maneira, acho que ele também me via como filha, embora nunca tenha dito isso com todas as letras.
Meses se passariam sem que nada de relevante acontecesse. Foi um período difícil e particularmente frustrante. Obtivemos notícias dos oreanos por uma carta de Laroen endereçada ao Larcon. Graças à Imperatriz, tivemos acesso ao texto. O mestre havia decidido partilhar com sua irmã algo sobre sua busca. Dissera a ela que o oreano tinha a chave para sua cura, mas não lhe revelara o essencial, ou seja, que ele era o alorain. Isso ele não podia fazer, porque Tairom e, indiretamente, Lisian serviam ao Deus da Chama Eterna, o supremo inimigo da Causa que o alorain defendia. Ora, se essa divindade obtivesse a identidade do escolhido certamente iria ela própria livrar-se dele, provavelmente matá-lo, e isso inviabilizaria os planos do meu mestre. Mas, por outro lado, contar com a ajuda da Imperatriz era essencial, caso desejasse ter alguma chance de êxito. Menator era um homem ladino, mas não tinha o poder nem a motivação para enfrentar o alorain. Lisian Silai Guenor, porém, faria tudo ao seu alcance para ajudar o irmão — e seu poder sobre o marido era considerável. Seu primeiro auxílio veio justamente sob a forma dessa carta, que ela trouxe secretamente a nossas mãos cerca dois meses depois do desaparecimento dos oreanos. O texto, porém, não trazia muitas informações. Nele, Laroen explicava seu desaparecimento a Tairom sob o pretexto de que aos dois havia sido incumbida uma missão da mais alta relevância pelo Círculo de Dicar, missão da qual não poderiam se furtar em função do juramento dicariano. Pretendiam, porém, retornar assim que possível, mas não diziam quando. Ao final, desejavam sorte ao Imperador em sua futura empreitada continental e afirmavam que retornariam o quanto antes para com ela colaborar ativamente.
Falarei por um momento sobre essa “empreitada continental”. De fato, o Larcon estava reunindo suas tropas em Cilion. Legiões partiam da Cidade do Portal e deslocavam-se à ilha fortaleza incessantemente, juntando-se ao relativamente numeroso exército continental, sediado em Algar e Zalcaris. Contudo, disfarçava seus esforços evitando o transporte maciço de tropas. Deslocou o exército ao longo de meses em pequenos e relativamente desprotegidos comboios. Todavia, no continente (especialmente na Cidade de Oréu), muitos já desconfiavam de um ataque — embora não soubessem quem seria o alvo. Rumores de uma ofensiva zainiquiar se espalhavam pela Península. Havia notícias de que nobres do Império Médio já pregavam abertamente a formação de uma aliança que viesse a dissuadir a Terra das Sombras de suas intenções belicosas. Tairom desconfiava (possivelmente com razão) que a recriada Irmandade Acsim — e seu líder Jonorat Gonarom — estivessem por detrás desses rumores. Por isso, decidiu combinar um ataque maciço à Delânia a uma invasão a cidade de Algarian-naqui (sob o controle do Império Médio), onde possivelmente estaria Jonorat Gonarom. O problema é que não era prudente dividir o exército que atacaria o relativamente poderoso Reino de Delânia e tampouco seria razoável deslocar a guarnição de Zalcaris ou de Algar, deixando essas cidades estratégicas vulneráveis a um contra-ataque do Império Médio. A única solução, portanto, era esperar o transporte de mais legiões, que estavam ainda sendo mobilizadas e treinadas na Ilha Zainíquia.
Contudo, o Larcon não estava disposto a esperar, pois queria evitar os riscos da formação de uma Nova Aliança, ao mesmo tempo em que ansiava por dar o golpe final nos inimigos de seu Deus, a Irmandade Acsim. Adotaria, por isso, uma solução heterodoxa: mobilizaria um exército no próprio continente, formado por um povo conquistado, os cilianos. Essa solução implicava riscos bastante óbvios, pois, afinal, até que ponto era possível contar com a lealdade deles? Não seria mais prudente, pelo menos, mesclá-los com o restante das legiões imperiais, em vez de formar um exército composto apenas por cilianos? Motivos de natureza estratégica e militar, porém, inviabilizavam essa opção. Já que a preparação ciliana era insuficiente, eles acabariam por diminuir substancialmente a efetividade de uma legião zainiquiar treinada por vários anos em Telosai e nas outras escolas militares — pelo menos assim acreditavam nossos orgulhosos generais. Além do mais, o Imperador tinha razões para crer que os cilianos seriam leais. Essas razões ficarão evidentes mais tarde.
O exército ciliano, portanto, deveria ser utilizado separadamente, constituindo-se em apenas um complemento ao poder zainiquiar. Por isso, sua missão seria razoavelmente simples: marchar sobre a indefesa cidade de Algarian-naqui e depois fortalecer o exército invasor de Delânia, composto também pela poderosa legião do sul, liderada pelo competente general Daron de Ari. Essa legião deveria previamente destruir as defesas delones, invadindo Tansis e o sul do reino. Seria, então, reforçada pelos cilianos, que ajudariam a dizimar o exército delone e depois conduziriam o cerco a Algar. Eis, portanto, em linhas gerais, os planos do Imperador, que seria posto em prática cerca de um ano depois de nossa partida da Terra das Sombras.
Ficamos sabendo dessas notícias por Lisian, mas a verdade é que elas não nos interessavam — e se as menciono aqui é simplesmente porque teriam certa repercussão em nossas buscas, mas isso somente quando o plano do Larcon fosse posto em prática. Infelizmente, durante esse interregno de quase um ano, não tivemos grandes progressos. Cerca de três meses mais se passariam (portanto, cinco meses do desaparecimento) antes que conseguíssemos identificar o local de onde a carta fora efetivamente enviada. Tratava-se da Cidade do Delta, justamente a cidade natal do povo oreano. Era óbvio demais! Naturalmente, era lá que buscariam refúgio! Como fôramos tolos em não deduzir esse fato, concentrando nossas buscas em cidades zainiquiares na Península e em certas localidades no Império Médio. É verdade que tínhamos motivos para agir como agimos. Em primeiro lugar, os oreanos nos despistaram, induzindo-nos a acreditar que a carta havia sido enviada de Algar — pois fora de lá que o barco que a trouxera partira. Em segundo lugar, as vilas e cidades que investigamos por meio dos emissários de Menator eram justamente aquelas que tinham presença mais ativa do Círculo de Dicar, ordem clerical a que os oreanos pertenciam. Contudo, ao menos aparentemente, eles não estavam sob a guarda do Círculo. A carta que enviaram por um barco alguiano, havia sido trazida por outro barco, a partir da Cidade do Delta. Essa informação poderia ter sido descoberta antes, se os enviados de Menator tivessem sido mais cuidadosos. Seguiam, porém, nossas instruções a risca, como autômatos sem um traço de criatividade. Ordenamos que investigassem Algar e foi isso que fizeram, sem se preocupar em confirmar a origem da mensagem — providência que tomaram por nossa sugestão três meses depois.
Essa ineficiência irritou meu mestre, que resolveu conduzir as investigações pessoalmente daquele ponto em diante. Por isso, zarpamos para a Cidade do Delta e, por dois meses, lá ficamos procurando determinar a localização do alorain. Era interessante observar a exótica Cidade do Delta, com seu povo de cor escura e suas construções de estilo arquitetônico tão diverso do nosso. Era uma cidade decadente, mas que ainda portava traços da elegância daqueles centros que um dia possuíram grande poder. Nossas buscas nos levariam também a outras cidades contíguas — a saber: Tomaxia e Jar-li. Essas cidades não tinham nada de especial, já que eram muito semelhantes a Cilion, repletas de construções em estilo norgam, óbvios resquícios do domínio ciliano. Talvez Jar-li pudesse despertar algum interesse no viajante mais atento, pois nela havia sim alguma discrepância do estilo arquitetônico e da etnia predominante (novamente norgam), com variadas minorias que serviam para temperar a homogeneidade do ambiente, semeando ares de mosaico. Chamou-me especial atenção a minoria de pele amarela, que faziam parte da poderosa coalizão que a leste e nos planaltos além da Serra Arcônica era conhecida como Confederação Trolnaquiana. Eles pareciam ser os únicos naquele lugar que não falavam a língua de oréu e não faziam questão de conhecer mais do que os rudimentos desse importante idioma. Ao que parece, aquela gente considerava indigno misturar-se, contaminar-se com a cultura ou os costumes dos bárbaros peninsulares. Olhavam-nos com desprezo a partir do forte Paironeus (ou Pironeu) na margem oposta do Rio Eterno, baluarte ocidental de seu poderio militar conquistado dos cilianos após uma guerra sangrenta.
A não ser por esse aspecto turístico, nossas buscas não foram muito proveitosas. Conseguimos, apenas, descobrir os lugares em que oreanos estiveram e — ao que parecia — eles contavam sim com a ajuda do Círculo, cujas ramificações eram mais amplas do que a princípio havíamos imaginado. A destinação dos dois, porém, era incerta. Pelo que sabíamos, haviam-se dirigido para oeste, mais precisamente para Galocar Antaniom, capital do Império Médio. Ao menos, esse era o destino de uma caravana à qual tinham-se juntado. Estávamos, contudo, dois meses atrasados e não havia como saber se eles ainda estavam na cidade. Seguimos seus rastros, porque não tínhamos outra escolha. Mas novamente fomos iludidos e nada conseguimos saber sobre eles em Gstonian (o outro nome dessa capital). Depois de quase dois meses de buscas nessa e em outras localidades do Império Médio, deixamos o reino e viajamos para o sul. Percebia que mestre Laios estava muito desapontado depois de todo esse tempo, mas ele tentava esconder seus sentimentos de mim sob uma falsa aura de otimismo. Eu também estava aborrecida... Ou os oreanos eram extremamente inteligentes ou tinham muita sorte — provavelmente as duas coisas eram verdade. Só assim se explicava o fato de conseguirem iludir tanto Menator de Zan quanto meu mestre por tanto tempo. Mas se a inteligência é uma constante, nada é mais volúvel do que a sorte. Era chegada a hora da fortuna sorrir para meu cansado mestre. Isso aconteceu quando chegamos a Algar.
Interromperei a narração por um instante para colocar em pratos limpos essa questão das datas. Resolvi concentrá-las todas de uma vez para que não tenha que consultar minhas anotações a esse respeito o tempo todo. Confundo-me ainda hoje com essa sopa de letrinhas que são os meses, dias e sextos à moda dos peninsulares. Por isso, preciso ter certo cuidado... vejamos. Tenho poucas dúvidas de que saímos da Terra das Sombras no dia noclal-4 de 1668 e chegamos a Cilion já no mês seguinte (atral-2, 1668). Ora, foram cinco meses do desaparecimento antes que puséssemos o pé na estrada e mais quatro meses de busca antes que retornássemos a Algar (no dia sinral-3, 1669). Já estávamos, portanto, a quase um ano desde nossa chegada à Península quando, por fim, vislumbramos a antiga capital do reino alguiano Os planos do Imperador já estavam, então, em pleno andamento. A invasão da cidade delone de Tansis estava prestes a se consumar e o próprio Larcon encontrava-se em Algar conduzindo os últimos preparativos para a invasão de Algarian-naqui pelo seu recém-formado exército ciliano.

Feitas essas considerações, posso retomar a narração em um momento interessante em que, inesperadamente, reencontramos Menator de Zan. Nossa sorte mudaria, então, criando uma sucessão de eventos que determinaria o fim de minha jornada ao lado do mestre. É disso que pretendo falar a seguir.

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