O Livro de Laios

Sinopse:

O enredo principal do terceiro dos quatro livros consiste na narrativa dos eventos que se sucederam à guerra civil na Ilha Zainíquia e à instauração da Quinta Dinastia. Tais fatos são descritos sob a ótica do neto de Diom Silai, Laios, que planeja sua vingança contra o assassino de seu avô. Contudo, para derrotar o poderoso Zainog, precisará aceitar inusitadas alianças, que terão, no devido tempo, conseqüências imprevistas.

A busca pelo poder e o desejo de vingança combinam-se de forma poderosa num enredo em que traição e lealdade nem sempre são coisas opostas. Sem dúvida, o mais sombrio dos quatro livros.

Prólogo:

Nunca imaginei! Mesmo agora, enquanto escrevo estas primeiras linhas, ainda tenho dificuldade em acreditar no que estou fazendo. Como aquela velha conseguiu me convencer a escrever esse livro, eu não sei. Mas já que vou fazê-lo, ao menos que eu o faça com um pouco de método.
Comecemos, pois, pelo princípio (ou seria pelo final?). Estava trabalhando em Algar onde tenho vivido durante os últimos anos. Escolhi morar aqui porque gosto do clima desta cidade, é quente (às vezes um pouco quente demais), úmido (muito úmido!). Está bem, está bem, não vou mentir. Esta cidade é muito desagradável! A Península inteira é um caldeirão fumegante, ao menos para um zainiquiar como eu. Mas é aqui que as coisas acontecem, então, é aqui que eu quero estar. Meu trabalho é ler e traduzir textos antigos. Esta atividade está entre as muitas coisas que eu sei fazer. Modéstia à parte, sou um homem muito sábio! Admito, porém, que este trabalho de leitura e tradução de textos é maçante. Mas deixe estar... Tenho certeza de que vou conseguir em breve um meio de não precisar trabalhar.
Estou divagando, eu sei. Pois bem, voltemos à velha de quem falei. Estava lendo e traduzindo um texto chatíssimo sobre as normas de construção de barcos do Império Ciliano. Eis que entra a velha. Disse se chamar Amoel Gliam. Segundo me informou, era a Reverenda Madre do Mosteiro das Queialiam e estava a minha procura. Disse-lhe que podia ser a imperatriz da lua que eu não a deixaria me interromper no meio de uma tradução. Ela resmungou que sou um velho rabugento, no que, aliás, tem toda razão. Depois, deixou sobre minha mesa um presente e um recado. O recado era daquele que chamam de Deus do Céu e de outros nomes que nem todos conhecem. O presente, bem, o presente era uma jóia, um pequeno pássaro de ouro. O seu significado não poderia ser mais relevante. Explicarei a razão dessa importância no momento adequado. Basta dizer que, ao vê-lo, fiquei emocionado, pois julgava que a relíquia estava irremediavelmente perdida. Como que por instinto, tentei tomá-la com a força da minha mente, mas não é que Amoel conseguiu me impedir! Mandou, então, que eu lesse o recado. Ela ordenou que eu o transcrevesse, mas eu não vou fazê-lo. Afinal, ela não pode ficar me dando ordens. Ademais, seria um trabalho inútil. São trinta linhas para dizer uma coisa só: escreva um livro sobre um certo período e relate tais e tais fatos e terá a relíquia. O pior de tudo é que a velha terá o direito de revisar o meu trabalho. Ela é detalhista e impertinente, posso antever.
E aqui estou eu escrevendo esse livro. Sabe como é: foi a emoção do momento. Reencontrar aquele objeto depois de tantos anos! Racionalmente, porém, não sei se o pássaro vale o sacrifício. O fato é que fui convencido e agora tenho que cumprir a palavra empenhada. Voltemos, então, no tempo e visitemos os domínios que há muito abandonei. Falo da Terra do Vento, a Laeníquia, onde nasci e cresci.

Capítulo 1: Surpresa ao anoitecer

O naufrágio levou-me a uma praia pedregosa. Finalmente percebia que fora um erro tentar contornar as terras selvagens por meio de navios. Os generais deviam saber que os norgam não podiam ser vencidos em seu elemento, que era a água. Estava feliz por estar em terra novamente. Entretanto, minhas esperanças eram poucas. Sozinho em pleno Deserto de Pedra, como iria sobreviver? Por cinco dias eu andei a esmo, seguindo através da costa na esperança de encontrar alguma ajuda, mas não havia ninguém. Tinha certeza de que estava fadado a morrer de sede e de fome. (...) Quando minhas forças se esgotavam, vi a Fortaleza. Eram escombros de uma velha construção. Arrastei-me até lá e caí inconsciente. Com toda certeza teria morrido se Ralos não tivesse me ajudado. Eu estava em sua morada e o velho eremita curou-me. Um dos últimos de uma antiga linhagem de magos, ele possuía grandes poderes. Contou-me que sua idade era de quinhentos e setenta e dois anos! (...) Entretanto, nem o grande Ralos poderia viver para sempre e a morte se aproximava. Se algo não fosse feito, toda a sua sabedoria morreria com ele. (Arion Silai, “À Sombra do Passado”)


Nasci e cresci na Terra do Vento, mais precisamente na elegante cidade de Laiog-Zainan, ou Abiam-Eianam, como era conhecida por seus fundadores. Alguém que não a tenha visto ao menos uma vez nunca será capaz de dar-lhe o devido valor. A beleza descrita é estéril, pois aquilo que agrada os olhos deve ser observado. Em todo caso, imagine se puder, meu caro leitor. Deitada em meio a montanhas majestosas, cujos picos pontiagudos freqüentemente eram encobertos pelas nuvens, minha cidade era preenchida por numerosas moradas de pedra e tortuosas ruelas que levavam ao grande prédio central em forma piramidal, que chamavam de Academia. Ao lado, bem menos imponente, estava o palácio de meus ancestrais. Muralhas remanescentes das velhas guerras de unificação protegiam toda a cidade. Um belo lago margeava a pirâmide, em suas águas refletia-se não só esta imponente estrutura mas, também, o azul do céu. Era uma terra fria aquela em que vivíamos, uma das mais frias de toda a gélida ilha. A sensação térmica era fortemente afetada pelos ventos que lá sopravam, ventos que uivavam freqüentemente ao atravessar os desfiladeiros, nobres vizinhos da minha cidade. Foi lá que vivi os primeiros treze anos de minha vida. Eventos alheios a minha vontade, porém, iriam forçar-me a deixar minha casa.
Meu nome completo é Laiossarionin Linriliarod Zan-galionast Silai. Sou filho de Laiossarionin e neto de Diom. Meu avô era o senhor da Terra do Vento, o suserano de um dos seis feudos do grande império do sul, conhecido como a Terra das Sombras. Nosso Império, formalmente em paz, estava na verdade dividido entre duas correntes rivais, as quais mais cedo ou mais tarde teriam que acabar se confrontando. As causas últimas dessa cisma encontram-se na Guerra de Algar (que se encerrou no de 1636 ou 1939p.e., no calendário peninsular). Durante este conflito, alguns dos nobres que se envolveram mais de perto nas hostilidades acabaram utilizando os seus próprios recursos para o financiamento da guerra e ficaram, por isso, em situação financeira delicada. Este era o caso de Tairon Norgat, o senhor dos filhos do fogo. Ele, que sempre fora um dos mais poderosos nobres da ilha Zainíquia, encontrava-se praticamente arruinado. Apoiara o Larcon Naogon Lamir-Vonin Linriarod (então já bastante idoso) em sua temerosa aventura militar para, em troca, obter o apoio da Terra do Aço, da Terra da Água e da Terra do Tempo na sucessão imperial. Era quase certo que após a morte do imperador, o filho de Tairon seria escolhido para sucedê-lo. E assim se deu. Em 1641, Fairon Norgat foi aclamado imperador pelo Conselho de Escaelos. A manobra política, porém, saíra cara demais. Para equacionar esta questão financeira, o velho Tairon, já muito doente em função da idade, casou sua filha Liana com Zairom Guenor, herdeiro de um rico comerciante de escravos da Terra da Água. Ocorre que Fairon, por motivos que vim a conhecer mais tarde, odiava Zairom e opunha-se ao casamento, que, a despeito de sua vontade, acabou se realizando. O ódio de Fairon tornou-se ainda maior depois de 1645 quando, durante uma reunião extraordinária do Conselho de Escaelos, Zairom conseguiu impedir a manobra do jovem Larcon, que visava declarar guerra ao reino continental de Delânia, além de promover o massacre de um enorme número de escravos. Meu avô ficou ao lado de Zairom nesta discussão, de modo que também para si atraiu a inimizade do Larcon. Este planejou com cuidado a sua vingança e no ano de 1657 estava finalmente pronto para executá-la.
Mas eu nada sabia sobre estes assuntos. A política nunca me interessou muito, apesar de meu pai gostar muito dessa estranha arte de governar outras pessoas. Eu sempre preferi o estudo da magia, e quando falo em magia refiro-me especificamente ao desenvolvimento das habilidades mentais. Nunca gostei das maçantes ciências naturais e sempre achei que não havia motivo para misturar o estudo de ervas, poções e coisas do gênero com o desenvolvimento da mente. Neste particular (revela-me a Reverenda Madre) eu era muito parecido com Rairom Guenor, filho de Zairom. Não sei, porém, se as nossas razões eram idênticas. Meu interesse por magia veio da antiga história do mago Ralos ou Raolus, o velho eremita que fora o mestre de meu ancestral Arion Silai. Sempre me espantou o fato de ele ter morrido com quinhentos e setenta e seis anos de idade. Isto mostrava claramente o incrível potencial dos poderes da mente, cujos segredos esperavam para ser desvendados nos velhos livros do eremita depositados por detrás do Quinto Portal. Eu tinha certeza de que o estudo coordenado dessas obras abrir-nos-ia as portas para imensos poderes. Por um estranho tabu, porém, apenas o senhor da Terra do Vento e seu herdeiro tinham acesso a tal tesouro. Some-se a isso o fato de que muitos desses escritos eram praticamente indecifráveis e se tornará simples compreender por que pouco progresso fora feito até então. Eu, porém, estava decidido que, quando chegasse a minha hora, faria de tudo para desvendar o segredo da longevidade e dos poderes de Raolus. Desde pequeno, dediquei-me a aprender os mais diversos idiomas e alfabetos para que, na hora certa, fosse capaz de decifrar os enigmas que iludiram meus ancestrais.
Essa minha mania com idiomas causava certa estranheza em toda a minha família. O único que me incentivava era Zainog, o braço direito de meu avô e o mais prodigioso mago de sua geração. Zainog tinha apenas vinte anos, mas já dominava com uma maestria impecável os quatro portais dos elementos: o da terra, o da água, o do ar e o do fogo, apesar de sua indisfarçável preferência por este último (justamente o mais difícil de todos). Suas habilidades como mago elemental eram verdadeiramente impressionantes. Apenas meu avô Diom podia lhe fazer frente. Era impressionante vê-lo criando do nada pequenas esferas de fogo que fazia dançar sobre sua cabeça e explodir em minúsculas faíscas reluzentes. Eu, ao contrário, mal conseguia acender uma vela. A despeito disso, Zainog me admirava em razão de minha obsessão pelo Quinto Portal, pois também ele a partilhava.
— Laios, já chega por hoje — disse Zainog. Estávamos sentados à beira do lago. Atrás de nós, erguia-se a imponente Academia, com sua forma piramidal. Fazia sol e, apesar de estarmos no início do verão, o vento afastava o calor. Estava até um pouco frio (um peninsular certamente estaria batendo os queixos).
— Mas Zainog, eu ainda não consegui entender o alfabeto veradi. Se você não terminar a explicação, como vou fazer para ler esse livro?
— Estou ciente disso, Laios. Mas eu não posso me atrasar. Seu avô requisitou minha presença e você sabe disso.
— Estou farto dessas discussões filosóficas. Elas não levam a lugar algum.
— Concordo. Também não tenho muito interesse por esses assuntos. Mas se seu avô quer que eu participe, então devo fazer como ele ordenou, não é mesmo?
— É — suspirei. — Olhe lá. Lá vem minha irmã.
Da Academia, Lisian, minha irmã mais velha, vinha saltitante. Tinha quinze anos na época. Ela utilizava um traje formal, uma túnica negra cerimonial. Trazia consigo outro traje muito semelhante. Era para Zainog.
— Você vai se atrasar — disse ela, sorrindo para meu amigo. — Vovô pediu para chamá-lo.
— Laios não quer que eu vá — Zainog falou, também sorridente.
— Ora, deixe-o de lado um pouco. Vista-se logo, Zainog — insistiu Lisian entregando-lhe o traje que trouxera consigo. O de Zainog era ainda mais pomposo do que o de minha irmã. — Não é bom deixar o vovô esperando.
— Venha você também, Laios — sugeriu o meu amigo, enquanto colocava sua túnica por cima das outras roupas. — Depois da discussão, prometo que termino de explicar o alfabeto da língua central.
— Está bem. Não tenho nada melhor para fazer mesmo. Vou tentar não pegar no sono desta vez — disse sorrindo.
— Ah, já ia me esquecendo — falou Zainog. — Uma flor para mais bela das flores da Laeníquia — completou ele, ao entregar para minha irmã um exemplar da flor da lua. Esta planta era utilizada em muitas receitas alquímicas, inclusive na preparação de um novo veneno que meu avô e Zainog estavam desenvolvendo. Ao observá-la, porém, ninguém imaginaria que aquela flor de oito pétalas púrpuras pudesse ser tão perigosa. Era, com certeza, muito bonita e também uma raridade, pois só era possível encontrá-la em certos lugares das Montanhas do Vento.
— É uma flor da lua! — exclamou Lisian.
— Isso mesmo. Chegaram algumas dúzias dessa flor hoje pela manhã. Trouxe essa para você, mas não conte para seu avô que fiz isso, está bem? Essas flores são tão raras que o mestre não aceita que eu desperdice uma sequer.
— Pode deixar. Obrigada, Zainog — disse minha irmã, toda enternecida.
— Ora, não tem de quê. Vamos?
E nós fomos. A passos rápidos, adentramos o prédio da Academia. O lugar a que nos destinávamos ficava no centro da pirâmide. Os corredores estavam bastante movimentados, pois aquele prédio era uma escola. Havia, na Terra do Vento, cerca de duzentos alunos das artes místicas. Poucos seriam aqueles que se tornariam grandes magos. Alguns, por mais que se esforçassem, jamais conseguiriam aprender encantos complexos, pois a capacidade mental não é algo que possa ser aprendido, se já não estiver latente. Esta espécie de habilidade nunca faltou a minha família, de modo que sempre tivemos grandes magos. Uma exceção era meu pai, que apenas tinha apenas poderes medianos. Estou certo, porém, que até mesmo ele possuía o dom, faltou-lhe apenas a vontade para lapidá-lo.
Não demoramos muito para chegar a um grande portal dourado que dava acesso ao coração da Terra do Vento. Tratava-se da Sala do Mago. Apenas as reuniões mais formais eram realizadas naquele recinto. O portal se abriu e nós entramos. A nossa frente, desenhava-se uma enorme mesa de forma triangular. No vértice oposto à porta encontrava-se meu avô, com sua longa e grisalha barba. O velho Diom já passava dos setenta anos, mas mantinha a lucidez e a energia de um jovem. O recinto era muito amplo e seu teto acompanhava mais ou menos o formato piramidal. Havia entradas por onde a luz solar penetrava no recinto. Colados às paredes, estavam os portais.
À direita de meu avô, ficavam os quatro portais dos elementos, com os respectivos nomes em silai. Os dois primeiros portais pertenciam aos elementos materiais: iog (terra) e quia (água). Os outros dois representavam os elementos etéreos: lai (vento) e tai (fogo). Do lado esquerdo de meu avô, encontravam-se os quatro portais da filosofia natural: o da física, o da astrologia, o da biologia e o da alquimia. Por fim, atrás de onde se encontrava o Senhor da Terra do Vento, erguia-se magnífico o Quinto Portal, que não pertencia nem aos elementos, nem à filosofia natural, mas antes a ambas as coisas ao mesmo tempo. Era por detrás dele que se encontrava o maior dos tesouros de minha família e também a causa de sua ruína.
Muitos alunos preenchiam as galerias que circundavam a mesa central. Pelo visto, não haveria apenas uma discussão, mas sim um debate. Um dos debatedores era um convidado nosso. Chamava-se Amonat Garaqui. Sua origem alguiana era ocultada pelo negro de uma pele oreana. Esse sábio era um membro importante do distante Mosteiro das Queialiam, que se situava na parte setentrional da Península Oreânica. O outro era meu pai. A arte do debate realmente era uma de suas especialidades.
— Finalmente você chegou, Zainog — disse papai.
— Desculpe-me pelo atraso, meu senhor.
— Não deveria ter deixado nosso convidado esperando. Que exemplo está dando para os nossos discípulos? — indagou meu pai rispidamente. Na verdade, os dois nunca se deram muito bem. Meu pai invejava a afeição de Diom por seu pupilo e Zainog desprezava meu pai pela pessoa que era e o invejava pelo acesso que tinha ao Quinto Portal. Esforçava-se, entretanto, ao máximo para esconder estes sentimentos.
— Já basta, Laios — disse meu avô. Zainog dirigia-se conosco às galerias quando mestre Diom o interpelou. — Você também participará de nossa conversa, meu caro pupilo.
— Não sei se isto seria adequado, mestre, pois não possuo conhecimentos profundos de filosofia e teologia, como é o caso dos digníssimos debatedores.
— Não se preocupe com isso — disse Amonat, sorridente. — Não se trata verdadeiramente de um debate, mas apenas de uma troca de idéias. Pelo menos foi isso que mestre Diom havia me informado.
— E o senhor está certo, Reverendo Padre — confirmou meu avô. — Sente-se, Zainog.
— Como quiser, mestre.
Se meu avô estava no vértice do triângulo, os debatedores encontravam-se nas faces a ele contíguas e Zainog na face oposta. Eis, portanto, a posição dos quatro em relação à mesa.
— Senhores, o tema de nossa conversa é a natureza do bem e do mal, na visão dos zainiquiares e dos alguianos — disse meu avô. — É claro que não pretendemos chegar a uma conclusão, mesmo que provisória, sobre tão complexa questão. Tudo que almejamos é fazer um breve cotejo das perspectivas desses dois povos a respeito do tema para que possamos vislumbrar algumas semelhanças e diferenças. Gostaria de começar, mestre Amonat?
— Pois não. O primeiro aspecto que deve ser considerado, para discutirmos este problema, é a distinção que fazemos entre o mundo que é o mundo que parece ser. Para o alguiano, o mundo que realmente é não é idêntico àquele que se apreende pelos sentidos.
— Permita-me uma pequena observação, ó sábio Amonat — objetou meu pai. — Se o mundo que parece ser é o único que podemos perceber e se não temos esperança de compreender o mundo que é, então, conseqüentemente, o mais lógico seria desconsiderarmos este outro mundo, porque para nós ele não existe, já que não causa efeitos perceptíveis em nossa realidade. Portanto, meu caro Amonat, o mundo que parece ser, ao menos no que diz respeito aos homens, é o único mundo que é.
— Seu raciocínio está correto, mestre Laiossarionin. A crença na ilusão dos sentidos é uma questão de fé, já que apenas o mundo que parece ser está ao alcance da razão e da percepção. Minha análise, justamente por isso, restringir-se-á a este mundo que vemos.
— Perfeitamente.
— A idéia de bem, no nosso entender, pode ser atingida através do uso da razão e também pelo senso de eqüidade que nasce com cada pessoa. Como partes da grande sinfonia que é o Universo, nós podemos sentir a harmonia e também a aparente dissonância. O bem corresponde à lei universal e o mal é tudo aquilo que a ela se opõe.
— Mestre Amonat, o simplismo de sua definição me assusta. É sabido que os conceitos de bem e de mal variam de pessoa para pessoa e de cultura para cultura. Não são inatos, mas sim adquiridos durante a vida — argumentou meu pai. — O que um alguiano definiria como “bem”, pode corresponder ao que zainiquiar afirmaria ser um mal. Isso prova que um sentido de eqüidade comum a todos é algo que não existe. Não concorda?
— Novamente seu raciocínio é perfeitamente lógico, mestre Laiossarionin. Desta vez, porém, sua conclusão está equivocada. Perceba que a definição do que é o bem está para a moral assim como a definição do que é a verdade está para a ciência. Isso não está certo?
— Estou de acordo. Mas não compreendo no que isto ajuda a sua argumentação.
— Ora, quando se iniciou a ciência, quase nada se sabia sobre o mundo e a verdade está sendo descoberta aos poucos, ou não?
— É claro que sim.
— Se é assim, acredito que estejamos de acordo que essas partes descobertas revelam não a verdade como um todo, mas apenas um de seus aspectos. Assim, a alquimia, por exemplo, revelou a forma de se misturar substâncias para obter determinados efeitos, a biologia revelou conhecimentos sobre as formas de vida que habitam este mundo e assim por diante.
— O senhor divaga demais, mestre Amonat. Todos concordamos com essas obviedades, mas isso nada tem a ver com o objeto de nossa discussão.
— Isso tem tudo a ver, como logo ficará evidente. Perceba, mestre Laios, que as partes descobertas não revelam o todo nem mesmo em suas próprias áreas do conhecimento, quanto mais a verdade como um todo. Se pretendermos intuir o todo pela parte que conhecemos, a tendência é que nos equivoquemos. Por isso é que, muitas vezes, aquilo que se acreditava ser a verdade em razão de certos conhecimentos acabou se mostrando essencialmente falso, quando outras parcelas da verdade até então desconhecidas foram levadas em consideração. É assim que muitas teorias que eram tidas como verdadeiras acabam sendo descartadas. A verdade está sempre sendo progressivamente depurada, conforme o conhecimento humano avança.
— Por favor, termine o seu raciocínio — disse meu pai, já impaciente.
— Pois não. Ora, a moral é como a ciência. Conforme a civilização progride, o conhecimento da idéia de bem, assim como o da idéia da verdade, progride. Não é apenas o conhecimento técnico, mas também a elevação moral que diferencia um homem ou um povo civilizado daqueles que são menos evoluídos, barbarizados. Daí a diferença, meu caro senhor, entre os indivíduos e os povos a respeito da percepção da idéia de bem.
— Então o senhor afirma que uma moral pode ser superior à outra?
— Perfeitamente. Muitas vezes, ao menos em aspectos determinados, isso acontece.
— Então com certeza acredita que a moral do Império Médio ou moral alguiana, que enfatizam quase sempre valores femininos como a compaixão e o perdão, é superior à moral zainiquiar, que enfatiza basicamente as qualidades masculinas, como a coragem e a força.
— Essa diferenciação entre valores masculinos e femininos é enganosa. É fato que muitos homens, embora não todos, tendem a desenvolver certas virtudes em primeiro lugar. Isso acontece em razão de algo inato, mas principalmente em função da posição que o homem ocupa na sociedade que é, a princípio, determinada pelas diferenças de estrutura corporal entre os sexos. Como algo análogo acontece com as mulheres, elas também desenvolvem primeiro virtudes mais adequadas às suas condições físicas e culturais.
— O senhor apenas confirmou a diferenciação que há pouco enunciei.
— Essa não foi minha intenção. Veja: as virtudes não se contradizem. Não existe contradição alguma entre o perdão, a compaixão, a força ou coragem. Todas elas são virtudes, ou seja, partes da idéia de bem, assim como os conhecimentos da biologia são partes da verdade. Se o ser totalmente sábio conhece toda a verdade, o ser totalmente virtuoso possui todas as virtudes.
— Neste caso, ser totalmente virtuoso é impossível porque as virtudes se contradizem. Como pode o homem ser amoroso e forte se o amor gera fraqueza? Ou não é verdade que um guerreiro amoroso, cheio de compaixão pelo inimigo, será um fraco no campo de batalha?
— Não, isso é um equívoco. É errado acreditar que uma virtude possa gerar um vício ou se contradizer com outra virtude. O amor não é inimigo da força, mas sim da crueldade. A força não é inimiga do amor, mas sim da fraqueza. O amor só se oporá à força se a confundirmos ou a misturarmos com a crueldade. A força só se oporá ao amor se o confundirmos ou o misturarmos com a fraqueza. Não são, pois, as verdadeiras virtudes que se contrapõe, mas sim as falsas idéias que fazemos delas. A contradição desaparece assim que reformulamos e depuramos nossas concepções.
Meu pai não parecia muito satisfeito com a argumentação do religioso e estava pronto para começar a refutá-la quando meu avô interveio.
— Muito obrigado, mestre Amonat. A concepção de seu povo é imensamente interessante. A linhas gerais que o senhor enunciou são verdadeiramente instigantes e perturbadoras. Digo perturbadoras porque são muito diferentes das nossas próprias concepções. Pediria então ao meu filho que apresentasse a concepção mais aceita entre os zainiquiares da idéia de bem e virtude.
— Meu senhor, eu gostaria de antes refutar alguns pontos da argumentação do Reverendo Padre.
— Não. Já basta de argumentações a respeito das idéias de Amonat. Como disse no princípio, não pretendemos chegar a nenhuma conclusão a respeito do tema, mas apenas fazer o cotejo das visões de nossos povos concernentes à idéia de bem e de virtude. Não devemos perder a objetividade.
— Pois não, mestre Diom — concordou meu pai. — A visão zainiquiar é bem mais simples e pragmática do que a etérea concepção dos alguianos. O bem para nós não é um conceito longínquo, difícil de apreender, mas sim algo muito familiar a todos nós. É simplesmente tudo aquilo que é positivo, que nos causa benefício. Corresponde exatamente àquilo que desejamos. Se queremos alguma coisa é porque ela é boa para nós. Da mesma forma, se tememos perder alguma coisa é porque esta coisa é boa. O que é bom para um não o será para outro, e nem é preciso que seja. O bem para nós é uma idéia essencialmente individual. Daí porque a principal virtude de um homem é a força e a coragem. É através dessas virtudes viris que forçamos os outros a se curvar perante nossos desejos e moldamos o mundo que acordo com a nossa vontade. O bem instrumental, que é a virtude da força, contribui para o bem final, que é a realização de nossos desejos.
— Não vou refutar sua argumentação ponto por ponto, até porque este não é o objetivo de nossa discussão — disse Amonat. — Pelo amor à brevidade, proponho que nos atenhamos apenas a um questionamento. Sapientíssimo senhor, ao igualar a idéia de bem à realização de nossos desejos, o senhor está afirmando que o desejo não pode ter como resultado o mal?
— É claro que pode. Não me tome por um simplório, mestre Amonat. Por exemplo: um homem mata o desafeto porque deseja ardentemente fazê-lo. Para o assassino, a vingança é um bem, para o morto é um mal. Mas como eu havia dito, a idéia de bem varia de indivíduo para indivíduo.
— Que feliz exemplo este que o senhor escolheu! Então, para o assassino a realização do desejo é um bem?
— Precisamente.
— Mesmo que ele seja punido pelo crime, digamos, com a morte?
— Ah, mas isso não era o seu desejo.
— Entretanto, o senhor há de convir, mestre Laios, que é uma decorrência do seu desejo. A punição não existiria sem o homicídio. A execução é um mal para aquele que deseja, não há dúvida disso. Ou é um bem?
— Não. É um mal — concordou meu pai a contragosto. — Salvo, é claro, se ele desejar ser punido.
— Mas isso não é comum, é? A não ser que se trate de um criminoso masoquista — comentou Amonat. Todos riram, menos meu pai. — Além disso, o senhor desconsidera o sofrimento que o desejo homicida causou no assassino. Ou o senhor acredita que seja agradável sentir ódio, raiva e, às vezes, remorso depois de consumado o ato? A infelicidade que o desejo causa é um mal, não um bem, para aquele que deseja.
— Remorso só sentirá aquele que for fraco.
— Não! Remorso sente aquele que não tinha controle dos seus atos, que não agiu ponderadamente. Não percebe? Nosso assassino só sentirá remorso se foi o seu desejo e os sentimentos que dele brotaram que o fizeram consumar o homicídio e não a sua razão. O homem que é senhor de si nunca é escravo de seus desejos, portanto nunca sente remorso. O próprio remorso é, aliás, o resultado de um desejo: a vontade de ter agido de forma diferente no passado.
— E qual é a sua opinião a respeito de nossa discussão, Zainog? — indagou meu pai. Queria por certo, embaraçar o jovem mago. — O que o mais brilhante mago de nossa época tem a dizer?
— Quem sou eu, mestre, para intervir numa discussão que está tão além de meus parcos conhecimentos?
— Ora, você é Zainog, o grande prodígio! Por favor, você está muito calado. Compartilhe um pouco de sua sabedoria com os presentes — desafiou meu pai. Por um momento, eu vi um fogo no olhar de meu amigo.
Meu avô pensou em intervir, mas Zainog antecipou-se a ele. O jovem mago estava prestes a apresentar, ainda que indiretamente, uma justificativa para os terríveis atos que vinha perpetrando e estava para perpetrar. Essa seria a única explicação que eu obteria dele.
— Sabedoria eu não possuo, ilustre senhor. Mas se insiste posso dar minha opinião, que é sincera, embora, em virtude de minha ignorância, possa possuir grandes erros. Peço condescendência.
— E você a terá, meu jovem — disse Amonat.
— Pois bem, em primeiro lugar, devo concordar com o Reverendo Padre.
— Eu sabia! — exclamou meu pai.
— Não acho que o desejo realizado corresponda necessariamente a um bem. Isso só seria verdade se pudéssemos sempre prever as conseqüências de nossas vontades e nunca mudássemos de idéia. Ora, isso não existe. Quantas vezes não nos equivocamos? Quantas vezes não prevemos as conseqüências de nossos desejos? É inevitável, portanto, reconhecer que a realização de nossos desejos traz o bem e não raramente também o mal para nós mesmos. Por outro lado, numa perspectiva mais ampla, a realização da nossa vontade muito freqüentemente traz o mal a outras pessoas, como o próprio mestre Laios acaba de dizer. Assim, por mais respeito que possamos ter pelos Sagrados Versos de Larcon, ou pelo Testamento de Escaelos, não podemos confundir a realização do desejo com o bem. São coisas diferentes.
— Cuidado, Zainog. Falando assim você parece um alguiano, não um zainiquiar — comentou meu pai. Meu avô já estava irritado com estas constantes provocações.
— Por outro lado, devo discordar de mestre Amonat quando afirma que um homem completamente virtuoso estaria livre de seus desejos.
— Ele não afirmou isso aqui hoje — objetou meu pai.
— Ah não? Mil perdões. Eu acho que li esta idéia na literatura alguiana, em Nacoel Garonin ou no brilhante Anesontari Gonar. O senhor discorda dessas posições, mestre Amonat?
— Não, meu jovem! Concordo inteiramente com elas. Ainda há de existir um homem totalmente liberto das paixões humanas e ele estará mais próximo da perfeição moral do qualquer um de nós.
— Respeitosamente, eu discordo da filosofia de seu povo neste ponto, mestre. No meu entender, um homem livre de desejos é um homem morto. É claro que é preciso controlar as vontades, como é preciso controlar o fogo para que não se transforme em incêndio. Entretanto, um homem sem desejos, sem motivação, é um fogo apagado, um nada. É o desejo que nos põe em movimento, que dá sentido à nossa existência. Sem ele, só nos resta morrer. Então, não abramos mão de nossos desejos, não os reprimamos, mas os controlemos. Quando pensarmos em realizá-los, tenhamos sempre em mente a idéia de bem, não apenas o nosso próprio bem, mas também o bem geral da nossa comunidade e (por que não?) da humanidade como um todo. Eu sei que isso não é fácil. Trata-se de conciliar o egoísmo com o altruísmo. Mas se soubermos controlar nossos desejos, saberemos encontrar a melhor saída. Não existe uma solução que seja sempre aplicável. Devemos sopesar as variáveis em cada caso e, considerando que nossos atos trazem luz e escuridão, escolhamos aqueles que tragam um mal mais breve e menos importante, e um bem mais duradouro e relevante para nós mesmos e para o mundo. Eu acho que assim estaremos fazendo a melhor escolha, ao mesmo tempo em que não renegamos por completo nossos próprios anseios.
— Jovem Zainog, você concorda que os desejos trazem infelicidade, ou acha, como mestre Laiossarionin, que trazem apenas felicidade? — indagou o Reverendo Padre.
— Eu acho que os desejos trazem felicidade, mas o mais comum é que tragam infelicidade, especialmente quando é difícil realizá-los.
— Você se contradiz, Zainog — disse meu pai. — Se tem essa opinião, deveria defender, como mestre Amonat, que a melhor maneira de se aperfeiçoar moralmente é a libertação dos desejos, não concorda?
— Como se isso fosse simples! Desejar, sonhar, almejar, eis a essência do ser humano. Não é fácil abrir mão dela, mestre Laiossarionin. E, sinceramente, mesmo que pudesse, preferiria a morte a ter de abrir mão de meus mais altos sonhos. Eles são o que há mais caro para mim. A esperança de realizá-los é que me dá ânimo para viver e enfrentar toda espécie de obstáculos e dificuldades — disse Zainog. Aquelas palavras eram praticamente uma confissão, ao menos à luz do que sei agora. Na ocasião, porém, todos pensamos que Zainog falava em tese. Nada mais enganoso do que esta conclusão! Ele logo poria suas idéias em prática. Em um certo sentido, já as estava pondo.
A discussão prosseguiu animadamente, mas não há mais necessidade de relatá-la. Depois de terminadas as conversações, mestre Diom chamou Zainog e meu pai, e os três foram discutir outras questões. Pelo visto, não seria naquele dia que acabaria de aprender o alfabeto da língua central. Dirigi-me com Lisian para o Palácio de minha família. Ela estava muito alegre, em razão do presente que Zainog lhe dera.
— Você vai mesmo com o vovô? — indaguei, enquanto andávamos.
— Então você sabe que o vovô vai viajar?
— Eu sei.
— Nós partiremos amanhã. Acho que mestre Amonat irá conosco.
— Zainog tentou me convencer a ir com vocês, mas não estou com a mínima vontade. Além do mais, não gosto muito da Terra da Água.
— Ora, você é muito rabugento, Laios. Você nunca foi à Terra da Água. Como pode não gostar de lá?
— Não gostando e ponto final. Além do mais, detesto viagens longas.
— Você também nunca fez viagens longas.
— Como não? Esqueceu daquela vez que nosso pai me levou ao Pântano dos Dariep?
— Chama isso de viagem longa! Ah, esqueça. Se você não quer ir, não vá.
— Não vou mesmo. Não vou sair da Terra do Vento justamente agora que estou quase terminando de aprender o alfabeto veradi.
— Você e suas manias! — disse ela, despedindo-se em seguida.
Eu fui para meus aposentos e entretive-me com a leitura de um livro durante mais ou menos duas horas. O sol já se escondia por detrás das Montanhas de Lava quando decidi ir procurar Zainog. Cogitei que a reunião já deveria estar encerrada e o jovem mago poderia terminar a lição que começara. Fui até o jardim interno do Palácio, que era o lugar em que Zainog mais gostava de ficar, e lá, de fato, ele se encontrava. Deitado na relva esverdeada, ele estava distraído, de modo que não percebeu a minha chegada. Cumprimentei-o e ele sentou-se. Notei que havia algo estranho no seu semblante. Parecia estar irritado, inconformado com alguma coisa. Algo o consumia. Quando cheguei, ele evitou encarar-me nos olhos, mas pude perceber que estivera chorando.
— Zainog, o que aconteceu? — indaguei. Nunca vira meu amigo naquele estado antes.
— Laios... Ah, esqueça — falou o jovem mago e na sua voz pude perceber um grande desespero.
— Fale, meu amigo. Eu sei que há alguma coisa errada.
— Seu avô quer que eu vá com ele na viagem que fará em breve à Terra da Água. Mas eu não entendo nada de política. Ele devia levar seu pai com ele, você não acha?
— Acho. É por isso então que você está tão transtornado? — indaguei. Era óbvio que não podia ser este o motivo. A viagem era desagradável, não há dúvida, mas não teria como causar desespero em Zainog.
— Laios, você acha que há algum modo de convencer seu avô a levar seu pai em vez de mim? Você acha que há alguma maneira?
— O que há com você? Eu não estou entendendo o porquê de tanto nervosismo.
O meu amigo fechou os olhos por um instante e pareceu recuperar em parte a serenidade.
— Tem razão. Desculpe-me. Estou só cansado. As discussões com seu pai deixam-me mal-humorado.
— É isso então. Ele ficou provocando você durante o debate. Foi mesmo muito ríspido. Eu peço desculpas pelo comportamento dele, Zainog.
— Você não tem que pedir desculpas por nada, Laios — falou meu amigo com um sorriso no rosto. Tentava transparecer uma tranqüilidade que não possuía. — Por que não viaja conosco?
— Não. Prefiro ficar, não gosto de viagens longas.
— Vamos. Vai ser divertido.
— Já disse que não. Você e Lisian só falam nisso!
— Está bem. Não vou mais insistir — falou Zainog um pouco desapontado.
— Anime-se. Lisian vai com vocês. Ela está muito feliz por causa da flor que recebeu do querido Zainog.
— Não acha que Lisian está gostando de mim, acha? — indagou o jovem mago, desta vez sorrindo sinceramente.
— Gostando. Eu acho que ela está apaixonadíssima — afirmei. Zainog não pôde deixar de rir. Sua expressão, porém, logo voltou a assumir um tom de seriedade. As preocupações, que por um momento haviam sido afastadas, pesavam novamente sobre os ombros do jovem mago.
— Ora, Laios você sabe que para mim Lisian é uma irmã. Aliás, vocês dois, eu os amo como se fossem meus irmãos menores. Vocês têm que acreditar nisso. Não importa o que aconteça, vocês têm que acreditar! — disse ele, profundamente amargurado. Tinha lágrimas nos olhos.
— O que há com você? — indaguei espantado. Havia mesmo algo de muito errado com ele.
— O que estou dizendo? Eu também vou ter que esquecer esses sentimentos. Agora não há outra saída. Tudo vai ter que acabar dessa forma terrível! — exclamou ele e saiu em disparada. Tentei alcançá-lo, mas acabei perdendo-o de vista. Aquela conversa me deixou pesaroso. Algo de muito grave já havia acontecido ou estava para acontecer. Eu conhecia Zainog desde que me entendia por gente e nunca o vira agir daquela maneira. A primeira reação que tive foi a de procurar meu avô. Entretanto, tive dificuldade em encontrá-lo, pois no Palácio ele não estava. Fui até a Academia e lá me informaram que tinha ido com minha mãe visitar alguém na cidade. Podia ir conversar com Lisian a respeito, mas decidi que primeiro iria falar com meu pai. Ele estivera presente na conversa, de modo que poderia ter alguma idéia sobre a razão do desespero de Zainog. Fui até seus aposentos. O sol já lançava seus últimos raios no firmamento e o azul do céu enegrecia-se.
Corri pelos corredores do Palácio, pois um forte pressentimento tomou conta de mim. Uma agonia inexplicável intensificava-se a cada momento, de sorte que penetrei esbaforido nos aposentos de meus pais. Estavam aparentemente vazios. A porta do armário, entreaberta, revelava um fio de um líquido avermelhado: o sangue! Sem pensar, sem raciocinar, corri em direção ao armário e, ao abri-lo, deparei-me com a pavorosa visão do corpo de meu pai. Estava morto, queimado, ferido e de seus cortes esvaia-se a essência da vida. A expressão em seu rosto denotava a agonia que antecedeu a morte. Ao encará-la foi como se levasse um soco. Caí para trás e amparei-me na cama. Minha surpresa e o meu choque eram incomensuráveis. Vomitei. Ainda não havia chorado, mas sentia uma enorme dor de cabeça. Voltei-me em direção à porta e vi que estava fechada! Havia mais alguém comigo no quarto.
— Depois de ouvir meu desabafo, era previsível que viesse falar com seu pai. Por isso, fiquei esperando. Não posso deixar que vá contar a mestre Diom o que conversamos — disse Zainog, enquanto se revelava. Fora fácil para ele ocultar-se de mim, enganando minha mente.
— Zainog, você...? — tentei indagar. Não conseguia articular as palavras.
— Tinha mesmo que acabar assim. Fui um tolo em imaginar que poderia ter sido diferente — disse meu inimigo. Em sua voz eu não sentia remorso ou culpa. Ele já estava conformado com o desfecho que passara a considerar inevitável. Antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Zainog jogou-me contra a parede com a força de seu pensamento. — Pobre Laios... — foi o que eu o ouvi dizer antes de perder os sentidos

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