Prefácio de "A Guerra das Sombras"

Em 1999, comecei a escrever “A Guerra das Sombras”. Estava, então, no final do quarto ano da faculdade de direito. Não dispunha, então, de muito tempo livre para escrever. Mesmo assim, num certo dia de novembro, por pura diversão, comecei a narrar uma história, cujos traços principais eu já havia elaborado. Por certo, não esperava escrever um livro inteiro (não tinha esta pretensão). Descompromissadamente, fui avançando um pouco por dia. Agora, anos depois, para a minha surpresa, tenho três dos quatro livros que compõem o romance terminados.

Mas por que resolvi escrever um livro? Eu não saberia dar uma resposta exata para esta pergunta. Não é algo simples de explicar. Um dos motivos, acho, é o poder que o ato de escrever me dava. De súbito, as limitações que a vida nos impõe desapareciam por completo e uma força quase absoluta me era conferida! Em uma simples frase, eu fazia nascer um mundo que obedeceria às regras que eu criasse. As leis da física estavam abolidas, de sorte que, do caos, eu poderia fazer nascer aquilo que minha imaginação determinasse. Lá estava eu olhando para o monitor de meu computador e, no instante seguinte, surgia a minha frente a visão exótica de uma ilha coberta de gelo em cujo centro fumegavam vulcões. Por um poder diabolicamente divino, neste lugar relativamente ermo eu fiz habitar pessoas, seres humanos como nós. Sem grande surpresa, constatei que eles continuavam agindo da mesma forma que seus parentes do mundo real. Continuavam matando uns aos outros, disputando os recursos e as terras, conquistando, escravizando, digladiando-se por seus desejos. Vez por outra, também amavam e eram benevolentes, alguns dentre eles queriam ser melhores, eram curiosos, desejosos de aprender a razão de sua existência e as leis do universo em que viviam. Mas eles estavam jogados naquela ilha gelada, forçados a obsequiosamente desempenhar o papel que eu despoticamente lhes atribuiria. Para cada um dos seres humanos que participariam da teia de eventos que eu havia previamente elaborado, atribuí uma personalidade. A todos eles fui obrigado a doar algo da minha própria natureza, pois isso era muito difícil de evitar. Não obstante, não fiz um mundo de clones meus. Ao contrário: a todos fiz diferentes, apropriados para as funções que deveriam desempenhar e também moldados pelos fatos pretéritos que em suas vidas eu havia colocado. Conseqüentemente, nenhum de meus personagens era igual a mim.

Preparado o palco e escolhidos os atores, iniciei o espetáculo. Desde o princípio, tentei seguir o plano que eu havia estabelecido mentalmente. Logo percebi, porém, que esta idéia pré-estabelecida era geral demais e ignorava uma série de detalhes essenciais ao desenvolvimento da história. Estas lacunas só eram preenchidas no momento em que eu estava escrevendo. Antes, eu tinha apenas uma visão genérica, era como ver uma grande cidade através da janela de um avião. Quando comecei a andar pelas ruas da cidade, ou seja, quando comecei a escrever, percebi novos fatos, novas minúcias. O curioso é que muitas vezes essas minúcias me surpreendiam. As paisagens revelavam-se diferentes do que eu havia previamente imaginado. Os personagens, às vezes, comportavam-se de forma imprevista. Eu, que achava que estava no controle, que pensava ser onipotente, vi meu plano inicial ser alterado, subvertido, por mais de uma vez. Sublevando-se contra meus desígnios, revoltando-se contra o destino que lhes impusera, meus personagens muitas vezes agiram de forma inusitada. Alguns conseguiram um papel mais importante para si, outros mudaram sua própria natureza, outros simplesmente alteraram a história como um todo. Em certos instantes, tornei-me quase impotente, praticamente não mais do que um mero espectador em meu próprio mundo. É claro que eu poderia impedi-los se realmente quisesse (afinal a caneta – ou o teclado – estava em minhas mãos). Entretanto, logo percebi que era mais interessante conferir-lhes uma certa liberdade. Surpreender-me com eles era divertido e eliminava qualquer tédio que pudesse surgir no ato de escrever. Desde que fossem coerentes com aquilo que eram ou com o que haviam se tornado, permitiria que fizessem tudo (ou quase tudo) que quisessem (por mais que eu discordasse de suas atitudes). Exemplo emblemático dessa situação é o próprio Rairom, o protagonista. Em pouquíssimos eventos ele agiu como eu agiria. Numerosas vezes ele fez opções que estavam em desacordo com as minhas idéias iniciais. Na minha opinião (e na opinião de alguns personagens também), ele não agiu sempre de forma acertada e freqüentemente teve atitudes inadequadas. Rairom tornou-se, no decorrer do Livro de Dinaer, diferente de mim, bem mais diferente do que era no início. Na medida do possível, ele seguiu seu próprio caminho.

Mas, afinal, o que me levou a escrever foi o poder absoluto pertinente a este ato ou a ausência dele? Na verdade, as duas coisas ao mesmo tempo e, possivelmente, outros motivos também. O fato é que escrever o livro foi uma atividade muito recompensadora, quase uma forma de lazer. Digo quase porque as dificuldades eram grandes. Planejar uma história tão longa como “A Guerra das Sombras” é mais difícil do que parece. Entretanto, as recompensas foram, sem dúvida, maiores. Em suas páginas, pude discutir questões que me intrigavam, afirmando, pela voz de meus personagens, verdades sobre as quais não estava certo. Pude escapar da rotina da vida cotidiana por alguns instantes e mergulhar num mundo tão diferente do meu, avistando belas paisagens, vislumbrando o futuro e o passado do universo que criara. Pude acompanhar os passos de meus personagens, sentir suas aflições, perceber suas dúvidas, viver suas aventuras, compartilhar suas derrotas e vitórias. Enfim, pude divertir-me muito!

Entretanto, não ousaria afirmar que aqueles que lerem a história que se segue necessariamente gostarão dela como eu gosto. Sei que não é assim. Ora, meu livro não é perfeito. Ele tem falhas, defeitos que não ignoro. Aqueles que considerarem tais falhas imperdoáveis, naturalmente entenderão que meu trabalho não foi bem sucedido. Além disso, há a questão da diversidade de preferências. Por óbvio, para que uma pessoa goste do livro, ele deve ser capaz de atender as suas expectativas e preferências. Ocorre que, quando escrevi a presente história, eu não visava as outras pessoas. No meu caso, escrever significava e significa acima de tudo atender ao meu próprio interesse. Se agisse de forma diversa, se privilegiasse as preferências de terceiros, elaborar este livro se teria tornado um ato enfadonho, quase insuportável, e eu certamente o teria abandonado. Portanto, se discuti determinada questão é porque ela me interessava (embora possa não ser interessante para outros indivíduos). Se escolhi um estilo de narrativa e se organizei os capítulos de determinada maneira, foi para atender àquilo que eu achei mais adequado. O próprio enredo, aliás, não visa outra coisa senão abordar temas que me atraem. Por conseguinte, considerando que as pessoas não são todas iguais, é natural que também aquelas cujos gostos são muito diferentes dos meus desgostem do meu livro e a ele atribuam uma série de defeitos que eu não atribuiria. Não estarão erradas ao agirem desta maneira, como eu não estou errado, ao menos a princípio, por escrever de uma forma que as desagrada.

Mas que questões são essas que atraíram meu interesse? Bem, não existe exatamente um tema principal. Entretanto, poder-se-ia afirmar que em “Guerra das Sombras”, discute-se (despretensiosamente, é claro) as limitações que a condição humana impõe aos indivíduos. Pois não é verdade que são frágeis os seres humanos? Que podem essas criaturas quando as circunstâncias de suas vidas as empurram numa direção não desejada? Até que ponto podem elas resistir com seu livre-arbítrio? Até que ponto sua resistência é verdadeiramente real, ou meramente ilusória? E mesmo quando é ilusória e inútil a resistência, ela não tem algum valor? Não é belo quando esse ser tão frágil, cuja vida é uma chama insignificante perante a eternidade, levanta-se, eleva-se quase como um deus, desafiando o próprio cosmos, o próprio destino? E quando ele clama para um universo surdo e frio, querendo espremer das imensidões vazias um pingo de sentimento, não há uma triste beleza neste ato? Por fim, mesmo que a luta do indivíduo isolado seja em vão, será que a humanidade um dia se tornará forte o suficiente para vencer as limitações humanas, superando a própria morte, ou será isto uma quimera, uma ingênua arrogância? Obviamente, não tenho uma resposta satisfatória para nenhuma dessas perguntas, que são mais formuladas do que esclarecidas no corpo do livro. Abordo estas e outras questões de forma explícita, às vezes, e mais comumente de forma implícita, sempre a serviço do enredo e do mundo em que ele se passa.

Lembro-me que, quando criança, em solitárias brincadeiras, já tinha por hábito imaginar universos fantásticos, onde o inexplicável tornava-se possível. Histórias eu contava, sem ser capaz de transformá-las em texto. Agora, já adulto, acabei por realizar algo muito semelhante. Criei uma história passada em um mundo diferente do meu. Entretanto, existem algumas diferenças. Os mundos de minha infância eram repletos de magia, de fantasia, não existia verdadeira concretude. O mundo cujos traços principais criei nestes últimos dois anos é bem mais concreto, embora ainda persista algo que se assemelha à magia. Outrora, apenas doçura e simplicidade instruíam minha imaginação. Agora, o acre sabor da vida tempera indelevelmente cada uma das imagens, ou dos eventos que sou capaz de imaginar. Todavia, existe algo que torna muito próximos os mundos de minha infância e as terras ermas que crio agora: o fim é praticamente o mesmo. Um de meus objetivos, em ambos os casos, (talvez até mesmo o principal) é satisfazer uma certa necessidade de evasão que me acompanha por toda a vida. O termo talvez seja inadequado, já que não se trata de verdadeira fuga. Não desgosto do nosso mundo nem me permito estar alienado dele. Então por que me “evadir”? Talvez a pergunta mais apropriada seja: por que não? Se é algo agradável, que me faz bem, sem me trazer malefícios, não há razão para me privar dessa viagem tão interessante.

Sem mais delongas, portanto, abramos um portal, ainda que tênue e imperfeito, para outra realidade. Observe, leitor, enquanto ele surge a nossa frente, imponente e ameaçador. Aproxime-se devagar e vislumbre as belas e terríveis paisagens que estão do outro lado. Agora, só falta um passo. Basta querer. É este portal que eu o convido a atravessar agora. Seja bem-vindo!

Brasília, 11 de setembro de 2005
O Autor

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