Princípios Universais sob a ótica da Irmandade (de notas pessoais de Amoel Gliam)
Ao contemplar o Universo com nossos sentidos, podemos apenas vislumbrar uma pálida idéia da realidade. Nesta imagem distorcida, observamos objetos e divisões. Vislumbramos a nós mesmos como entes independentes e separados do mundo que nos rodeia. É a base de nossa crença que a divisão apreendida não passa de mera ilusão. Na verdade tudo é parte do Uno, de onde emana o Universo. Não existe, pois, verdadeira contradição entre as partes. Nas palavras de Nacolin Gáris, o Universo é uma sinfonia única e harmoniosa. Portanto, não pode existir uma nota verdadeiramente destoante do todo que é a Criação. A contradição (aqui entendida como o mal) é pois mera aparência, uma ilusão decorrente da nossa incapacidade de observar os fatos livres da distorção que os nossos sentidos nos impõe.
Este princípio, embora não possa ser provado, no sentido de ser demonstrado, pode ser apreendido como verdadeiro pelo nosso eu interior, que está muito além do eu puramente racional, que chamamos de consciência. Isto é perfeitamente natural, uma vez que nós mesmos somos parte desta sinfonia, e em conseqüência intuímos o todo, embora não possamos verdadeiramente apreendê-lo.
Também acreditamos que esta percepção não deve ser empecilho para a investigação do mundo. Sabemos que, para apreender a realidade precisamos separá-la, já que somos incapazes de apreender o todo. Sabemos sobre a distorção que a visão humana do mundo necessariamente contém. No entanto, consideramos que a investigação do “mundo que parece ser” nos ajuda, ao menos, a elaborar uma vaga idéia do “mundo que realmente é”. Portanto, é uma ferramenta extremamente útil. Ao, então, nos debruçarmos sobre “o mundo que parece ser”, vemos que nossa percepção dos fatos baseia-se em dois elementos básicos: o tempo e o espaço. A mente humana trabalha com estes fatores e a partir deles situa o objeto em análise. É difícil, para não dizer impossível, abstrair a idéia de tempo e de espaço na investigação dos fenômenos.
Nossos filósofos, ao longo dos grandes ciclos, ora enfatizaram o tempo, ora enfatizaram o espaço, quando da sua análise do Universo. Não que qualquer um deles pudesse descartar um ou outro fator. Trata-se apenas de uma questão de foco, de ênfase. Quando enfatizado o tempo, surge uma perspectiva dinâmica dos eventos. Quando enfatizado o espaço, tem-se uma perspectiva estática. Para cada uma delas elaborou-se três princípios que passamos a citar.
Perspectiva Dinâmica:
1) Jonalac-ronsiniel (O princípio criador): o princípio criador é a base da visão dinâmica do universo. Ele é a manifestação da razão do Uno. O “existir” é a imagem do princípio criador. Entenda-se que a existência e o princípio criador não estão, necessariamente, numa relação de causa e efeito “no mundo que é”, embora seja isto que os sentidos indiquem “no mundo que parece ser”. Na perspectiva da Irmandade, a criação não precisa ocorrer dentro do tempo. Esta visão seria um diminutivo da verdadeira natureza do princípio criador pelos sentidos humanos eminentemente temporais. A própria existência da realidade em si mesma, a cada momento, é a suprema manifestação do princípio criador.
2) Sironzanton-amorat (O princípio renovador): alguns sábios erroneamente nomeiam este princípio com o nome de destruição, ou princípio da morte. Isto é um equívoco. Não existe nem uma coisa nem a outra. O que existe é renovação. O princípio criador é colocado em movimento, na visão dinâmica do Universo, pelo princípio renovador. A transformação é um processo constante no “mundo que parece ser”, se observado na perspectiva temporal. Tudo se renova a cada momento. Esta percepção, aliás, é quase universalmente aceita. A imagem da renovação é a “transformação”. Na verdade, o princípio renovador não existe “no mundo que é”, pois ele é o próprio princípio criador visto na perspectiva temporal.
3) Jonalac-sinozantonin (O princípio evolutivo): unindo-se o princípio criador com o renovador, temos, na perspectiva dinâmica da realidade, o princípio evolutivo. Ele mostra que o princípio criador, visto na perspectiva temporal através do princípio renovador, implica uma constante e ininterrupta evolução, o aperfeiçoamento do Universo. A evolução não é a depuração do mal, que não existe, mas sim o constante aperfeiçoamento do próprio bem. Este é o princípio mais difícil de vislumbrar “no mundo que parece ser”. Nossa observação deformada vê no erro (também chamado de mal) como um retrocesso, não uma evolução. Ocorre que o erro nada mais é do que um passo no caminho do aperfeiçoamento.
Assim, observando-se o Universo numa perspectiva dinâmica, vemos uma realidade em constante mutação, mutação esta que implica aperfeiçoamento.
Perspectiva estática:
1) Dimaniz-otansidan (o princípio da razão): o Universo é razão. É um pensamento racional, cuja origem é o Uno. Ao apreendermos as leis naturais do “mundo que parece ser”, é impossível não vislumbrar a racionalidade intrínseca que permeia todas elas. O equilíbrio e a elegância da dança cósmica são evidentes. A vida em suas múltiplas formas, as leis naturais, o movimento dos astros, a beleza que existe na natureza, tudo isto são provas da racionalidade universal. Para a Irmandade, esta racionalidade do “mundo que parece ser” revela uma verdade “do mundo que é”: o universo é razão. O aparente caos é apenas uma ilusão decorrente da imperfeição de nossa apreensão da realidade. A racionalidade universal em tudo está e tudo permeia.
2) Nodarot-ossindaron (o princípio da união): o universo é uma sinfonia única. Nada está realmente separado. O que vemos como objetos independentes “no mundo que parece ser” na verdade estão unidos com o cosmo “no mundo que realmente é”. Em conseqüência, tudo o que fazemos influencia o cosmo como um todo, assim como o cosmo nos influencia. No mundo que é não há eu que não o Uno do qual tudo que existe faz parte. Logo, é impossível existir contradição que perturbe a perfeita ligação entre as partes (apenas aparentes) que formam o todo (este sim real). A racionalidade do Universo é una e só pode ser compreendida de uma perspectiva verdadeiramente universal. Daí podermos vislumbrá-la, mas não entendê-la em sua plenitude.
3) Nodarot-dimanissotan (o princípio da pureza): unindo-se o princípio da racionalidade, que implica que o universo é permeado de razão, com o princípio da união, que determina a impossibilidade de contradição, percebemos que o Universo é puro, no sentido de ser ele “uma benévola harmonia”, nas palavras do sábio Nacolin Garis. O mal simplesmente não existe no “mundo que realmente é”. O erro (chamado de mal) é apenas um dos caminhos do bem. A dor e o sofrimento humanos, a crueldade e a injustiça são etapas no caminho da evolução, do aperfeiçoamento do próprio princípio do bem. Por isso, não se pode dizer que sejam realmente más. O que percebemos como o mal no “mundo que parece ser” é na verdade um bem “no mundo que é”. Assim, a pureza universal jamais é perturbada. Esta constatação é difícil de apreender em razão de nossa perspectiva reduzida.
Eis, pois, os princípios nos quais se assenta a construção filosófica da Irmandade.”
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